Introdução (im)provisória + Take 2

 

Ilha da Música Ilhada

 

Introdução rodopiante (tempestade anterior à calmaria)

Ouvidos todos temos. Todos temos ouvidos. Tememos nossos ouvidos. Trememos. Tremulam as membranas. Quando deixamos de ter medo, tímpanos timoneiam a dança sináptica.

A jangada de pedra* que é esta Ilha de Santa Catarina oscila há duas décadas no meu peito, que está conectado aos meus ouvidos e demais sentidos. Esta é uma escritura em primeira pessoa. Jornalismo cidadão. Experiência vivida.

Ouvidos todos temos. Somos todos ouvidos. E com os que tenho, aproveito desde que descubro boa parte da música autoral feita na também chamada Ilha da Magia, em alusão ao folclore povoado de narrativas bruxólicas, talvez ainda pouco destrinchadas com abordagem semiótica, portanto vistas aquém do potencial transformador que teriam. As sacações geniais do Franklin Cascaes. Fiz uma frase longa. Caso queira ser inteligível, eu sei, digo a quem me lê agora, tenho que me acalmar.

Vim parar (e me mover) na ilha

Chegada: 27 de dezembro de 1992. Estamos em 2012. Duas décadas. De cada, experiências diferentes. Beiro os 30 anos de idade, então tenho dois terços de vida ilhada. E com escuta. Mas na adolescência as descobertas ainda eram com a chamada música morta, mais que tudo registrada em fitas K-7 (cassete, para os afrancesados) ou ouvida nas rádios popcorns acessíveis. Dava nush córnu.

Lembro até hoje da descoberta da música instrumental feita ao vivo, que por ser de improvisação bem além do quatro por quatro, tinha tom autoral na releitura: Café dos Araçás, 2000 ou 2001 era o ano, noite, e naquela casinha açoriana Cássio Moura, Toucinho Batera, Arnou de Melo e Leco, quarteto guitarra-bateria-baixo-piano, mostrando o que até então eu só conhecia em CD, sem referência imagética. Me encantou ver a dinâmica da interação pelo olhar, dos convites, dos solos, dos diálogos, das voltas aos temas naquela pegada do jazz moderno, coisa fina, alguma bossa renovadora.

Isso na mesma época em que eu descobria os discos de vinil do Hermeto Pascoal. Nos Araçás. Extinto. Que viria a ser muitos donos e anos depois, em rotações da vitrola vital, sede da ZeroTrack e concomitantemente do Centro de Inovação Social. Deve haver quem nem tenha sabido da existência dessas variantes no tempo para o mesmo espaço, ainda assim o fato é que fez barulho.

Extintores de incêndio.

Agora funciona na casa uma vidraçaria comum do filho da dona, perdeu a graça, o olhar vidrado, o ouvido anestesiado pela serra elétrica. Talvez a senhora sem timo (poderia dizer tino, poderia dizer senso) social e artístico seja boa metáfora para o jogo de cena que, dado nada aleatório, é deletério à música autoral e à economia criativa na cidade pelo trato que recebe do poder estatal e de parte da elite econômica, em que os filhos da repetição cover sempre à boa casa tornam, talvez tecendo rendas montados num boi-de-mamão fake que viaja na maionese pop, enquanto gira na pindaíba etérea e instável a roda dos enjeitados sublimes, que pisam em ovos e preparam a omelete nutrição colorida, chocados com o eco no vazio pardo.

Invisibilidade relativa, disso se trata. Acontece criação autêntica, vista em nichos, em ninhos, em berços esplêndidos, trincheiras pacifistas pela via da arte. Mas a mídia de massa, ignorante das questões cardíacas, tem pouca coragem e falseia a realidade, exibindo jineteadas em CTGs e campeonatos de motocross  em detrimento, por exemplo, de uma oficina franca com Naná Vasconcelos em 2009, no Floripa Instrumental. Fui testemunha ocular, espantada, do fato.

Sem pessimismo gratuito nem crítica negativa depressora, é necessário organizar o discurso ou o fracasso deste colapso verborrágico será impávido colosso. Mas não largo o osso. Tusso e sigo.

A verdade é que tudo é mais complexo do que gostaríamos. E que podemos falar de coisas muito boas feitas nesta paisagem musical insular que é fecunda, florida, promete.

Música ilhada

A música que se faz na Ilha de Santa Catarina ou está relacionada com ela já rodou o Brasil e o mundo. É uma provocação o título deste amontoado de palavras gráficas áfonas que tratam do intangível que é o campo do som. Já se transitaram as pontes, de cimento e aéreas. As infovias também ajudam na circulação. Os festivais independentes, a web 2.0, as licenças flexíveis, a generosidade intelectual e os modelos de negócios abertos, tudo colabora para a quebra do ovo fértil que dá nascimento a uma ave de vôo amplo (já escrevi isso por aí). O que liberta é o gosto, o gesto genuíno, o resto é resto.

Há catarinenses que foram catar a brecha da matrix bem longe. Um caso é Wado, compositor alagoado (partiu para Alagoas) e algodoado (de algodão). Emigrou da ilha aos 8 anos de idade, a tiracolo da família provavelmente, e encontrou em Maceió terreno mais macio, por incrível que pareça e contradizendo os estereótipos nacionais de sul maravilha e nordeste atrasado.

Wado de alguma forma, voluntariamente ou não, renunciou à ponte Hercílio Luz, que queria apenas para pedestres. Fico imaginando se teria trilhado caminho semelhante (6 álbuns nos 10 anos transcorridos entre 2001 e 2011) se tivesse permanecido na ilha pelos acasos da vida.  Esparge a arte dele de graça na rede, que balança e faz cair uma chuva boa prazenteira, finalmente, exemplo para a abertura que pode ainda emergir nos corações ilhados, alguns já sensíveis, outros em processo de degelo, todos talvez rumando à dispersão ampla da arte, em que a rega é tão prolífica a ponto de favorecer os brotos que viram comida para as almas sem regra.

A música é, das artes, a que mais apta está a servir como ambiência para situações marcantes da vida. Pode ser fruída, fluidamente, de olhos fechados. Provoca dança interna, no nível atômico, bioenergético. Isso, é claro, se viva.

Alitero para evitar a prolixidade, sem êxito.

Escrever sobre música é tarefa inglória, posto que ninguém aposta um tostão furado no texto como via de acesso à música. A canção é o aval máximo que a palavra tem para fundir-se a ela. Textos que falam sobre música podem ser enfadonhos, por um caráter laudatório, ou por falta de capacidade metafórica para significar algo próximo do acontecido in loco. É louco.

Numa praça, a Bento Silvério, na Lagoa, que é da Conceição, músicos jovens conceberam uma roda de choro aberta para acabar com a tristeza das quartas-feiras, todas de cinza. Isso em 2007, 2008. Por incrível que pareça – e seja -, a polícia interrompeu a iniciativa multicrômica poucos meses depois, quando o movimento musical começava a ganhar corpo. Um poeta já evadido da ilha e que também marcou presença na cultura contemporânea da porção insular da cidade de Florianópolis, a tão difundida Floripa, bem longe dos estereótipos glúteo-praiano-baladeiros, acreano, César Félix, potente na crítica irônica me disse: “A polícia impediu as rodas de continuarem porque o Choro é uma coisa muito violenta”. Eis os comentários dele após a leitura deste trecho:

“Somente para agregar: acompanhei de perto o início das rodas de choro na pracinha da lagoa. Até porque parte dos chorões dividiam parede comigo. Lembro que a coisa foi parar lá pela pracinha porque nenhum comerciante queria os músicos tocando no seu recinto, diziam que a música iria “atrapalhar” o movimento. Os meninos e as meninas saíram do centrinho da lagoa, mais especificamente da “faixa de gaza” e só foram aceitos no lanche do Renato. Revoltados, os músicos tomaram uma decisão: vamos tocar no Renato todas as semanas, de graça, sem cachê, e assim fizeram: toda segunda feira.

Aconteceu que a música era boa e os músicos bem articulados, daquela roda de choro nasceu o “Margem Esquerda”. Início de 2007. A roda servia como diversão, mas também como prática e exercício de choro, local de aprimorar e praticar os conhecimentos musicais, uma troca semanal de informação. Muita gente perdeu o medo de tocar ali naquela roda de choro. Até que a inveja baixou forte, os mesmos comerciantes que não deixavam tocar denunciaram para a polícia. A roda foi impedida, acusada de ser violenta, coisas da ilha.”

De fato no município, a tolerância zero importada e a lei do silêncio são camuflagens da ausência de vontade estatal quanto à tão falada democratização do acesso à cultura. Talvez falte capacidade analógica para perceber que é como com os catadores de latinhas: se organizam pela necessidade, recolhem o que seria lixo e colocam o Brasil na posição de maior reciclador mundial de alumínio. Isso por geração espontânea, sem um plano de governo rígido com finalidades específicas. Se com as culturas autônomas da sociedade civil se fizer o mesmo, a reciclagem da própria sociedade se dará de uma maneira mais bonita. O controle repressivo inibe a capacidade de afeto, que é base imprescindível para um ambiente humano seguro de verdade.

Tratar irrupções criativas na cidade como desvios que devem ser corrigidos parece caminho pouco sábio. Um grupo de tango argentino contemporâneo chamado El Método aportou na ilha em 2011 e sofreu chateações, mesmo enchendo o largo da catedral de uma sacralidade como há tempo não se via. Um trio de chorões uruguaios também sofreu incômodos desnecessários. Um luthier chileno teve as flautas confiscadas arbitrariamente. Tudo isso na rua. Tudo isso na lua em que vivem os déspotas esclarecidos. Que não se informaram sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 e jamais se colocaram a questão da antropofagia, muito menos tomaram consciência da fase mais que nunca patchwork do mundo, em que as sínteses são obtidas com base na diversidade.

Um pé na Áustria, outro na Ilha de Santa Catarina. Essa é a realidade vivida há décadas pelo gaúcho de nascença Alegre Corrêa, que tem estúdio no Rio Vermelho e sexteto de música instrumental aclamado e lotador de teatros em Viena e adjacências européias. Epopéias aventurosas de indivíduos temerários. Alegre ganhou o mundo, mas há quem fique na tristeza, a ver mar revolto sem navios que carreguem.

Os argentinos que chegavam aos borbotões, feito revoadas de borboletas, nas décadas de 1980 e 1990, com os penteados diferentes e o portunhol selvagem, não foram os únicos. Ficaram por aqui alguns que tocam bateria em orquestra sinfônica e ao mesmo tempo em grupo de música instrumental brasileira, outros que vão do saxofone à Antropologia com a mesma ginga.

Evoco aqui Aníbal Ernesto Quiroga e Eduardo Ferraro, ambos integrantes do grupo Arreio Sem Freio, com gestação na ilha. O nome é bem adequado: fazem música estruturada, com bons “arreios”, mas cavalgam o som sem recorrer à tortura bucal do eqüino imaginário, no limite da linha entre a liberdade e a disciplina. As composições têm cores pascoalinas (de Hermeto) e também pigmentos de toda a América Latina. Uma das características ímpares do grupo é o uso da baterimba, instrumento percussivo derivado da junção da bateria com a marimba.

Alguém aí já ouviu falar? Ouviu tocar? Arreio Sem Freio! Lançou CD em 2009, que merece ultrapassar mais fronteiras.

 

Harmonia sem Cronologia*

*Título de música de Hermeto Pascoal

A Ilha de Santa Catarina, além do nome beato, tem também muitos terreiros afros. Samba, Choro, Música Instrumental Brasileira, Jongo resgatado por Luís Canoa, o som do Orocongo do Seu Gentil, Maracatu, Forró, for all.

Existe aqui uma única faculdade de Música, com opções de bacharelado e licenciatura, cuja ênfase é na vertente erudita. Há movimento pela criação de um Bacharelado em Música Popular na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), que abriga as graduações existentes. Atitudes corajosas de alguns professores hereges possibilitam a interlocução com a chamada Música Universal, de linhagem Hermética, espalhada pelo contrabaixista Itiberê Zwarg, cujas vindas acontecem em ciclos que se repetem há mais de dez anos. Vieram, voltaram e voltarão. Ele e a trupe. Antes Itiberê Orquestra Família, agora Itiberê Zwarg e Grupo. O próprio Hermeto também já esteve na cidade várias vezes. Na década de 1990, fazendo show no CIC (Centro Integrado de Cultura), sobre o qual ouvi a história de que formou um séquito que em procissão acústica desbordou o centro e integrou a cultura à periferia do teatro, em plena rótula, no meio do trânsito. Em 2008, ao ar livre na mesma Praça Bento Silvério, na Lagoa, que abrigou a roda de choro e é lugar de ensaios ao longo do ano do antigo bloco e atual escola bicampeã União da Ilha da Magia. Que mobiliza os integrantes da bateria em ensaios cuja periodicidade semanal cresce até a diária, proporcionalmente à aproximação do carnaval.

Take 2

Que agora, neste fevereiro de 2012, já ficou para trás e começa a se distanciar enquanto o ano flui rumo à nova virada e mais uma nau da carne. Todas convenções gregorianas, convenções profanas. Um conceito que li citado pelo Zé Miguel Wisnik é o de “iluminação profana”, cabível a várias situações de epifania terrena, que vem a ser o que acontece ao ouvir música. Ascensões celestiais também, além das escavações profundas.

Estávamos no carnaval, que passou. É em março que o ano realmente começa na cidade. Acontecem manifestações musicais variadíssimas, consistentes, flexíveis ao mesmo tempo, orgânicas, polissêmicas, alentadoras e mutantes.

Existe por aqui um paradoxo: as coisas acontecem muito rápido porque as coisas acontecem muito lentamente. Explico: a duração no tempo é curta, o fenômeno acontece rápido, os recursos monetários afluem devagar como remuneração pela arte. Costumamos ter uma visão romântica do artista, ainda assim muitos nessa condição pagam aluguel, andam de ônibus, táxi ou enchem o tanque, comem e vivem processos fisiológicos existenciais idênticos ou muito semelhantes a qualquer pessoa, do bocejo ao pum. E, como dizia vovozinha, “Neste mundo capitalista, tem que ganhar dinheiro e se sustentar”. Enquanto a arte não remunera o justo, muitos artistas emigram em busca de melhores acolchoados materiais ou transitam a atividades mais sóbrias que pagam o mínimo necessário para a subsistência.

Arte é lapidação, tempo, convivência quando se trata de música feita em grupo. Quando vemos um artista no palco, poderíamos lembrar que aquelas horas de espetáculo são só a ponta do iceberg, tendo como base submersa dias e dias de ensaios ou experimentação coletiva, bíceps fortalecidos pelo transporte de caixas, instrumentos, mesas e periferias, horas e horas dedicadas também ao comum trabalho de autoprodução, divulgação na internet, busca de apoios e tudo o mais. Almas em chamas que não queimam, derretem, sempre. Isso enquanto o anzol da penúria não lança rasga essa harmonia universal que acontece sempre que alguém consegue fazer o que gosta da vida. Fora da água qualquer peixe ofega.

Ao falar disso me vêm vários nomes, acasos, há casos que não são isolados, uns nadando outros alados, ao lado, à margem da régua de Chronos: Toucinho Batera, Quarteto Rio Vermelho, Trio Ponteio, Bando Muiraquitã (era um autodeclarado bando, não uma banda), Cangaia, Felixfônica, Margem Esquerda, Dr. Cipó, Trio Butiá, Cravo-da-Terra, A Corda em Si, Somato, Sonora Parceria, Tatiana Cobbet e Marcoliva, Karibu Trio, François Muleka, Gustavo Messina, Sito Lozzi, Mari Leonel, Alegre Corrêa (um pé na Áustria), Bebê Kramer (um pé no Rio). Tudo gente “de fora” e muito de dentro ao mesmo tempo. As pessoas são do lugar em que querem ser/estar e fazer a vida.

Outro dia

Este texto segue, e hoje é outro dia.

Sempre é dia da alteridade, do outro. E os comentários na seção CO[R]RELATOS já me deixam propenso à autocrítica quanto ao que escrevi antes. Talvez tenha dito coisas descabidas na Introdução (Im)provisória. Sempre é bom contar com o que os outros contam.

O Jean Mafra, cantor e compositor da cena independente da cidade envolvido com as articulações político-poéticas, fez comentário no Take 1 desta introdução e afirmou que o cover tem um papel importante no sustento da economia da música.

Respeito as minúsculas dele, porque é assim que prefere. Ele disse:

“então, demorei para me manifestar por alguns motivos:

a) o texto é longo e merece certa calma e reflexão (sua poeticidade/prolixidade dispersa), daí melhor é deixar a pressa para depois.
b) de certo modo, felipe, sua fala não deixa muito espaço para um interlocutor. ela afirma aqui, pergunta acolá, mas, de modo geral ilumina pontos com uma precisão que se bastam. note, isso é, antes, um elogio – que fique claro.

de todo modo e todavia e porém, deixo aqui meu relato pessoal.

sou alguém que (com outros, claro), já há alguns anos vem articulando politicamente com a categoria, músicos/produtores/adjacências, e com o poder público e, conforme venho caminhando, cada vez mais me sinto cansado disso tudo… sei lá… atualmente penso, fiz e faço e farei o possível, no mais, quero mais é construir as minhas pontes, meu espaço. sim: “meu”. mas de quem mais quiser vir comigo. do modo que der. mas com alguma solidão e nenhum egoísmo. se não estou sendo claro, tomemos uma cerveja. ela antes, e depois, do almoço é muito bom para ficar pensando melhor…

agora, de todo modo, como teu olhar se lança sobre um cenário musical que, embora eu conheça e admire, não é aquele com o qual tenha intimidade, não sinto que tenho muito o que acrescentar… ainda assim, faço um reparo: esse “universo cover”, tão poderoso por aqui, embora não me seja caro, é importantíssimo para economia da música feita nesta terra. no mais, não vejo tanta diferença entre esse (mundo) e um outro, o dos sambas e choros e suas “raízes”. para mim (salvo as exeções) é tudo celebração ad infinitum d’um passado idealizado.

por mim, aquele abraço e a torcida pelo desdobramento da conversa.

p.s. com eduardo ferraro, césar félix e guilherme ledoux, não tem como este espaço não parecer atraente.”

Concordo, é uma cobertura. Mas diferencio a execução que trata de se assemelhar ao máximo à versão mais batida, mantendo o conforto do conhecido, daquela que propicia o prazer da descoberta justamente pelo deslocamento a um ponto que torna o fazer sonoro mais composição flexível sobre uma referência do que repetição maquínica num molde rígido.

A grande questão é, talvez, o resgate de alguma transcendência. Às vezes esquecemos que a música é alquimia que depende da atenção enternecida do público.

Os comentários do Guilherme Gouvêa, violonista, cantor e compositor da banda Felixfônica, feitos na rede social mais popular atualmente, também me fizeram pensar.

“Pena que na época do Cangaia não tinha isso. Era VHS e todas as que compramos mofaram, nem pra mãe mostrar pras tias que moram longe e perguntam daquele filho cabeludo e maconheiro que tocava rock universitário. Acho que ela dizia que era rock porque forró pega meio mal até hoje. Mas voltando à cena, ela está em construção, tem gente legal fazendo merda, gente especial com camisa de força, eventos pipocando, feijoada do cacau bombando, economia local crescendo, pavimentações. Acho que em 20, 30 anos nós cairemos na real de que aquela releitura de Garota de Ipanema deveria ser em mi bemol.”

“O pior de ir num lugar com compositores é ver três ou quatro da platéia cantando e o resto falando alto porque o som atrapalha. Acho que esses lugares devem ser frequentados por mães, namoradas e os melhores amigos.”

Embora a poética visceral do discurso dele me impeça a segurança de ter entendido bem o que disse, acho que lamentou a barulheira que se instala em muitos ambientes que têm música ao vivo. Compartilho do desconforto. As experiências mais sublimes de audição musical me aconteceram em teatros ou lugares em que o espetáculo tinha o foco central, sem o som de liquidificadores e bandejas se intrometendo ou falatórios eufóricos sobre temas alhures na mesa ao lado.

A entrada em algum estado de transe costuma acontecer mais facilmente se o contexto colabora. Me veio à mente agora o caso do violinista Joshua Bell, que foi posto a tocar numa estação de metrô de Washington, nos EUA. A situação mostra bem o quanto é importante o reconhecimento. O músico é amplamente louvado pela crítica e pelo público, e ganha algo próximo das dezenas de milhares de dólares por mês. No metrô, anônimo e com a atenção temporária apenas de algumas crianças que retinham as mães para ouvir o som, o violinista declarou mais tarde que sentia alegria quando as pessoas deixavam uma nota de um dólar em lugar de simples moedinhas.

O Teatro SESC Prainha, com apenas cem lugares, foi o palco no qual vi mais música autoral na cidade. É de se pensar porque a proporção de espaço no SESC Prainha dedicado ao esporte (ginásio) tem capacidade para várias centenas enquanto o que serve à arte (teatro) tem que se contentar com apenas uma. É louvável o que acontece naquele lugar e os circuitos musicais que o SESC fomenta em todo o estado de SC, alimentando os músicos com algum provento e arejando com oxigênio o fogo criativo que, com sustento, tem chamas mais flamejantes. A pergunta é apenas como, tendo público e boa programação, o anfiteatro fica limitado a um número tão pequeno de cadeiras, em uma cidade que conta com população flutuante entre meio milhão e duas ou três vezes essa cifra dependendo da época do ano.

Muitos artistas que insistem na busca de caminhos insulares, se tivessem sido descobertos e produzidos na Europa (talvez ainda mais antes da crise) estariam com os bolsos cheios ou pelo menos com vida digna. Por aqui ficam juntando migalhinhas. Isso acontece por diversos motivos e um deles, menos mal já em transformação, é a postura pouco ética de muitos donos de bares e casas que oferecem música ao vivo. Entre outros problemas, são comuns a ausência ou precariedade de equipamentos de sonorização, o não pagamento de cachê fixo e a aferição unilateral (pelo contratante) do dinheiro arrecadado com couvert artístico, que deveria ser repassado integralmente, como diz a lei. É usual a reclamação dos músicos quanto à diferença entre o que imaginaram ter sido arrecadado certa noite, pela quantidade de público presente, e o que receberam ao fim do show, aquém.

Aí vale perguntar: de quem é a responsabilidade? Poderíamos arriscar como resposta que é compartilhada. A conivência dos artistas, seja por necessidade, seja por falta de autoconfiança, é que mantém as condições injustas.

Existem outros artistas que conseguem ter uma produção (ou autoprodução) mais eficaz, delimitam bem os limites do respeito para não ficar à mercê de situações abusivas e conseguem, mal ou bem, sustentar-se com a música que fazem.

Também me ocorre traçar uma relação entre a má mobilidade urbana na cidade de Florianópolis e o número de consumidores de arte, que fica abaixo do potencial. Muitas das apresentações acontecem durante a noite, com início às 20h, 21h, 22h ou 23h. Costumam durar entre duas e quatro, até cinco horas dependendo do contexto.

As linhas regulares de ônibus deixam de circular por volta da meia noite ou pouco mais. Depois existem uma ou duas linhas ao longo da madrugada, mas com itinerários que não cobrem todos os bairros. Além do mais não existe – e estamos numa ilha – transporte coletivo marítimo. O táxi é caro e os que se arriscam em aventuras ciclísticas noturnas são raros. Muitas das pessoas que formariam o público mais assíduo da cena musical ilhôa não pertencem às classes sociais que têm acesso aos carros. Portanto é de se pensar essa relação.

 

Consciência da responsabilidade e crowdfunding

A responsabilidade, ao escrever sobre o que se faz de música autoral contemporaneamente na Ilha de Santa Catarina, é muita. É necessário ter capacidade de responder e, também, de formular algumas perguntas necessárias.

Podemos ir pela via da falta, de apontar as ausências ou carências, mas também é possível enveredar pela visão clara do que já acontece. E acontecem muitas coisas.

Algumas delas passam ao largo dos modelos tradicionais de viabilização econômica. O crowdfunding, ou financiamento coletivo/colaborativo, serve como trampolim para os grupos e artistas que mergulham numa trilha autoral em vez de apostar na repetição. Alguns projetos originados em Florianópolis já passaram pelo site Catarse. Um bem-sucedido foi de gravação do CD do Sonora Parceria – Música Súbita, formado pela dupla Tatiana Cobett e Marcoliva, que já tinham convivência estreita antes, com os jovens Rafael Meksenas, Larissa Galvão, Mateus Mira, Pedro Loch e Rafael Calegari.

O grupo Cravo-da-Terra fez uma tentativa de arrecadação, também via Catarse (a mais atuante plataforma de financiamento colaborativo de projetos criativos no Brasil), para gravação do CD Verde Longe. Eles obtiveram por volta de um terço do valor proposto. O mecanismo prevê que o proponente do projeto só recebe os recursos se a arrecadação equiparar ou ultrapassar o valor estipulado. Quando isso não acontece, os doadores recebem o valor de volta em forma de créditos, para apoiar outros projetos.

Neste momento, por exemplo, a conjunção de muitos aspectos novos da realidade cultural brasileira é benéfica para um músico que há anos labuta e busca espaço na ilha: François Muleka. Está em curso, neste mês de março de 2012 e ao longo do abril próximo também, a campanha de financiamento coletivo do 1º CD dele, “Feijão e Sonho”.

Por aqui, ele declarou:

“Entrando aqui, me deu vontade de relembrar o memorável bar Jogral na cabeceira da ponte Hercílio Luz. Sempre sons de qualidade, e figuras das mais interessantes da ilha. Tive o prazer de pegar os últimos anos do bar… hoje não sei por onde anda o França, mas o lugar era lindo e tinha aquela vista maravilhosa para a ponte e para o mar, além da sopa. É um lugar onde tenho presas boas memórias de minha chegada na ilha e dos inícios de trabalho com música por aqui junto com o João Amado.

“Acho que hoje virou uma rádio. Aquele lugar sempre rendeu boas histórias, e se eu peguei a finaleira do bar, tenho certeza que os amigos por aqui vão poder contar poucas e boas. começo com uma:

“Certa vez tocando com o Amado, chegou um pessoal pelas 3h30 da manhã (horário de pico do local huahauhau). Era um grupo de respeitáveis senhores e senhoras, em clima de “encontro da turma de jornalismo de 63″. Pediram que tocássemos Pais e Filhos. Eu, que sou super fã da Legião Urbana, toquei feliz da vida… foi lindo ver aquelas pessoas juntas abraçadas em clima de natal, de mãos dadas cantando “é preciso amaaaaaaaar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Se filmássemos com uma 7D, daria uma linda propaganda de natal. Logo em seguida, pediram que o Amado tocasse uma do Ney Matogrosso. Ele tocou Bandoleiro… pois me bastou piscar os olhos e lá ia uma baita briga entre eles… não acreditamos no que acontecia… “segue tocando, disse eu pro amado”… depois “eita, deu briga mesmo”.

“Pedimos pra parar e, claro ninguém deu ouvidos. Resumindo, o senhor que foi o primeiro a agredir, tinha um Audi preto estacionado na rua em frente. O senhor que foi agredido, foi até a rua, pegou uma chave de fenda e arranhou com vigor e tenacidade um Audi preto perto do bar. Minutos depois ele entra no bar e diz, “tá aí! agora destruí teu carro, bonitão!”.

“Daí empurra-empurra e tudo quase-de-novo. Logo em seguida chega a polícia e mais uma dezena de pessoas de pijama, moletom furado de dormir etc… um senhor de bermuda curta tipo seleção brasileira dos 70 com um sapato “moca-sim!” disse pro policial “é ele… eu tava fumando na janela do apartamento e vi este homem danificando meu carro”. Explicando: o carro do senhor-agressor estava estacionado mais à frente… então todos nos demos conta de que o carro danificado era de uma pessoa que não tinha nada a ver com a situação toda e estava fumando na sacada de seu ap enquanto um maluco arranhava seu carro. No dia foi uma sensação muito ruim de presenciar aquilo… mas depois ficou a parte da comicidade da situação. Alguém tem outra sobre o Jogral?”.

François integra, além de outros grupos, o Karibu Trio, que vem conquistando bastante platéia (acentuada e nem sempre sentada). Os produtores dele são Andrea Rosas e Luiz Henrique dos Santos, santistas radicados na ilha que encabeçaram a Porão de Pedra durante alguns anos e agora a metamorfoseiam em Parolema. Têm colaborado com o grupo de choro Ginga do Mané, com o próprio Muleka, além do baterista Toucinho e da poeta Ryana Gabech no espetáculo performático Zunido de Poema, que circulou o estado em 2011. Entre outras coisas, esse casal de produtores já articulou o espaço em pleno centro para o projeto Travessa do Samba, que foi interrompido por proibição governamental.  O público submetido ao poder. Luiz Henrique deixou um bom relato sobre o tema:

“Em setembro de 2011, eu, Luiz Henrique, Andrea Rosas, Grupo Projeto Nosso Samba representado pelo Alvinho Carioca, Bira Pernilongo, Velha Guarda da Protegidos da Princesa e Instituto Arco-Íris criamos o projeto Travessa do Samba. A idéia era divulgar os compositores de samba em Florianópolis e contribuir para a revitalização do centro histórico.”
“Todo sábado os integrantes da Velha Guarda da Protegidos junto com o grupo Projeto Nosso Samba se revezavam para apresentar sambas de compositores da região dentro do espaço cedido pelo Instituto Arco-Íris lá na travessa Ratclif no Centro.”

“Para quem não sabe, nessa mesma travessa fica o Bar do Noel, local tradicional de encontro de sambistas, que contrata, ou contratava, assiduamente grupos de samba para se apresentar enquanto servia uma deliciosa feijoada. Pela travessa Ratclif passavam os blocos de carnaval antigamente.”

“Ela fica bem perto do terminal de ônibus antigo e depois da criação do TICEN ficou deserto. O projeto era perfeito. Começava às 17 horas, bem depois da apresentação do grupo Bom Partido no Bar do Noel. Todo o pessoal do bar ia direto pra lá assistir o Projeto Nosso Samba junto com o Bira Pernilongo e a Velha Guarda da Protegidos cantar seus sambas. Até tocavam sambas famosos mas a maioria era composições do Tião, Alvinho, Bira, Velha Guarda, Julio Maestri além de cantar sambas-enredos de várias escolas daqui.”

“Estávamos submetendo o projeto às leis de incentivo a cultura e/ou financiamento coletivo a fim de angariar fundos para pagar os músicos, convidados, produção, limpeza e banheiro químico.”

“Mas um dia alguém reclamou do “barulho” e essa reclamação virou uma liminar endereçada aos proprietários de bares da rua e ao Instituto Arco-íris proibindo qualquer manifestação musical naquela rua…”

“Há alguns registros interessantes sobre a idéia.

http://travessadosamba.wordpress.com
https://www.facebook.com/travessadosamba

O projeto teve que de ser interrompido.”

Sabemos que nesta cidade acontecem festas de arromba em casas de bairros de classe média, média-alta ou alta, sem que se interrompam, fazendo tremer as paredes das casas vizinhas mesmo com a tal lei do silêncio, que proíbe ruídos acima de certo nível de decibéis a partir das 22h. Tudo, mais uma vez, depende do contexto. Uma roda de samba ou choro na praça ou na rua é proibida, uma festa particular com música eletrônica comercial das mais quadradas é permitida.

Um dos exemplos de situação em que a música acontece com qualidade, em espaço público e em parceria com a comunidade, é o Floripa Instrumental, evento que teve lugar pelo menos seis ou sete anos na ilha, com diferentes intervalos, As duas últimas edições, em 2009 e 2011, que presenciei, aconteceram na Freguesia do Ribeirão da Ilha, com um palco ao lado da igreja e do centro comunitário, no qual se serviam frutos do mar em diferentes versões, preparados pelos moradores do bairro. O outro palco ficava na beira da praia e os shows eram no fim da tarde, com o pôr-do-sol acontecendo. O nome do produtor desse evento é Floriano, muito bem falado no meio musical pela correção com que trata os artistas. Esse evento dá espaço expressivo aos talentos da música instrumental da ilha, do choro ao jazz, passando pela big Banda da Lapa do Ribeirão, que faz um trabalho muito relevante envolvendo os jovens daquela comunidade, com arranjos energéticos para músicas populares. A entrada é gratuita e no Floripa Instrumental já tive o prazer de ouvir e ver Naná Vasconcelos, Arismar do Espírito Santo, Toninho Horta, Gabriel Grossi, Trio Madeira Brasil, Nailor Proveta, Yamandú Costa, Alessandro Kramer e Toninho Ferragutti, entre muitos outros. O ambiente propicia diálogo musical intenso nas Jam Sessions que se estenderam do fim da noite até o meio da madrugada e foram capitaneadas pelo guitarrista Cássio Moura, generoso no rodízio. Que acontece e não necessariamente é de pizzas, assim como a sequência não se limita ao camarão.

 

 

 

Ilha da Música Ilhada (continua…)

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2 pensamentos sobre “Introdução (im)provisória + Take 2

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