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Takes 3, 4, 5 e além – mistura grosseira, lapidação adiante

 

 

Ilha da Música Ilhada

 

A responsabilidade, ao escrever sobre o que se faz de música autoral contemporaneamente na Ilha de Santa Catarina, é amedrontadora. Impossível falar de tudo o que acontece e aconteceu, já que as fontes são variadas, e cada uma tem uma história para narrar, em ritmos próprios. É necessário mesmo assim, no mínimo, ter capacidade de responder e, também, de formular algumas perguntas necessárias.

 

Introdução rodopiante (tempestade anterior à calmaria)

Ouvidos todos temos. Todos temos ouvidos. Tememos nossos ouvidos. Trememos. Tremulam as membranas. Quando deixamos de ter medo, tímpanos timoneiam a dança sináptica.

A jangada de pedra* que é esta Ilha de Santa Catarina oscila há duas décadas no meu peito, que está conectado aos meus ouvidos e demais sentidos. Esta é uma escritura em primeira pessoa. Jornalismo cidadão. Experiência vivida.

Ouvidos todos temos. Somos todos ouvidos. E com os que tenho, aproveito desde que descubro boa parte da música autoral feita na também chamada Ilha da Magia, em alusão ao folclore povoado de narrativas bruxólicas, talvez ainda pouco destrinchadas com abordagem semiótica, portanto vistas aquém do potencial transformador que teriam. As sacações geniais do Franklin Cascaes. Fiz uma frase longa. Caso queira ser inteligível, eu sei, digo a quem me lê agora, tenho que me acalmar.

 

Vim parar (e me mover) na ilha

Chegada: 27 de dezembro de 1992. Estamos em 2012. Duas décadas. De cada, experiências diferentes. Beiro os 30 anos de idade, então tenho dois terços de vida ilhada. E com escuta. Mas na adolescência as descobertas ainda eram com a chamada música morta, mais que tudo registrada em fitas K-7 (cassete, para os afrancesados) ou ouvida nas rádios popcorns acessíveis. Dava nush córnu.

Lembro até hoje da descoberta da música instrumental feita ao vivo, que por ser de improvisação bem além do quatro por quatro, tinha tom autoral na releitura: Café dos Araçás, 2000 ou 2001 era o ano, noite, e naquela casinha açoriana Cássio Moura, Toucinho Batera, Arnou de Melo e Leco, quarteto guitarra-bateria-baixo-piano, mostrando o que até então eu só conhecia em CD, sem referência imagética. Me encantou ver a dinâmica da interação pelo olhar, dos convites, dos solos, dos diálogos, das voltas aos temas naquela pegada do jazz moderno, coisa fina, alguma bossa renovadora.

Isso na mesma época em que eu descobria os discos de vinil do Hermeto Pascoal. Nos Araçás. Extinto. Que viria a ser muitos donos e anos depois, em rotações da vitrola vital, sede da ZeroTrack e concomitantemente do Centro de Inovação Social. Deve haver quem nem tenha sabido da existência dessas variantes no tempo para o mesmo espaço, ainda assim o fato é que fez barulho.

Extintores de incêndio.

Agora funciona na casa uma vidraçaria comum do filho da dona, perdeu a graça, o olhar vidrado, o ouvido anestesiado pela serra elétrica. Talvez a senhora sem timo (poderia dizer tino, poderia dizer senso) social e artístico seja boa metáfora para o jogo de cena que, dado nada aleatório, é deletério à música autoral e à economia criativa na cidade pelo trato que recebe do poder estatal e de parte da elite econômica, em que os filhos da repetição cover sempre à boa casa tornam, talvez tecendo rendas montados num boi-de-mamão fake que viaja na maionese pop, enquanto gira na pindaíba etérea e instável a roda dos enjeitados sublimes, que pisam em ovos e preparam a omelete nutrição colorida, chocados com o eco no vazio pardo.

Invisibilidade relativa, disso se trata. Acontece criação autêntica, vista em nichos, em ninhos, em berços esplêndidos, trincheiras pacifistas pela via da arte. Mas a mídia de massa, ignorante das questões cardíacas, tem pouca coragem e falseia a realidade, exibindo jineteadas em CTGs e campeonatos de motocross  em detrimento, por exemplo, de uma oficina franca com Naná Vasconcelos em 2009, no Floripa Instrumental. Fui testemunha ocular, espantada, do fato.

Sem pessimismo gratuito nem crítica negativa depressora, é necessário organizar o discurso ou o fracasso deste colapso verborrágico será impávido colosso. Mas não largo o osso. Tusso e sigo.

A verdade é que tudo é mais complexo do que gostaríamos. E que podemos falar de coisas muito boas feitas nesta paisagem musical insular que é fecunda, florida, promete.

 

 

Música ilhada

A música que se faz na Ilha de Santa Catarina ou está relacionada com ela já rodou o Brasil e o mundo. É uma provocação o título deste amontoado de palavras gráficas áfonas que tratam do intangível que é o campo do som. Já se transitaram as pontes, de cimento e aéreas. As infovias também ajudam na circulação. Os festivais independentes, a web 2.0, as licenças flexíveis, a generosidade intelectual e os modelos de negócios abertos, tudo colabora para a quebra do ovo fértil que dá nascimento a uma ave de vôo amplo (já escrevi isso por aí). O que liberta é o gosto, o gesto genuíno, o resto é resto.

Há catarinenses que foram catar a brecha da matrix bem longe. Um caso é Wado, compositor alagoado (partiu para Alagoas) e algodoado (de algodão). Emigrou da ilha aos 8 anos de idade, a tiracolo da família provavelmente, e encontrou em Maceió terreno mais macio, por incrível que pareça e contradizendo os estereótipos nacionais de sul maravilha e nordeste atrasado. O Terceiro Mundo pode ser festivo.

Wado de alguma forma, voluntariamente ou não, renunciou à ponte Hercílio Luz, que queria apenas para pedestres. Teria trilhado caminho semelhante (6 álbuns nos 10 anos transcorridos entre 2001 e 2011) caso tivesse permanecido na ilha pelos acasos da vida? Esparge a arte dele de graça na rede, que balança e faz cair uma chuva boa prazenteira, finalmente, exemplo para a abertura que pode ainda emergir nos corações ilhados, alguns já sensíveis, outros em processo de degelo, todos talvez rumando à dispersão ampla da arte, em que a rega é tão prolífica a ponto de favorecer os brotos que viram comida para as almas sem regra.

A música é, das artes, a que mais apta está a servir como ambiência para situações marcantes da vida. Pode ser fruída, fluidamente, de olhos fechados. Provoca dança interna, no nível atômico, bioenergético. Isso, é claro, se viva.

Alitero para evitar a prolixidade, sem êxito.

Escrever sobre música é tarefa inglória, posto que ninguém aposta um tostão furado no texto como via de acesso à música. A canção é o aval máximo que a palavra tem para fundir-se a ela. Textos que falam sobre música podem ser enfadonhos, por um caráter laudatório, ou por falta de capacidade metafórica para significar algo próximo do acontecido in loco. É louco.

Numa praça, a Bento Silvério, na Lagoa, que é da Conceição, músicos jovens conceberam uma roda de choro aberta para acabar com a tristeza das quartas-feiras, todas de cinza. Isso em 2007, 2008. Por incrível que pareça – e seja -, a polícia interrompeu a iniciativa multicrômica poucos meses depois, quando o movimento musical começava a ganhar corpo. Um poeta já evadido da ilha e que também marcou presença na cultura contemporânea da porção insular da cidade de Florianópolis, a tão difundida Floripa, bem longe dos estereótipos glúteo-praiano-baladeiros, acreano, César Félix, potente na crítica irônica me disse: “A polícia impediu as rodas de continuarem porque o Choro é uma coisa muito violenta”. Eis os comentários dele após a leitura deste trecho:

“Somente para agregar: acompanhei de perto o início das rodas de choro na pracinha da lagoa. Até porque parte dos chorões dividiam parede comigo. Lembro que a coisa foi parar lá pela pracinha porque nenhum comerciante queria os músicos tocando no seu recinto, diziam que a música iria “atrapalhar” o movimento. Os meninos e as meninas saíram do centrinho da lagoa, mais especificamente da “faixa de gaza” e só foram aceitos no lanche do Renato. Revoltados, os músicos tomaram uma decisão: vamos tocar no Renato todas as semanas, de graça, sem cachê, e assim fizeram: toda segunda feira.

Aconteceu que a música era boa e os músicos bem articulados, daquela roda de choro nasceu o “Margem Esquerda”. Início de 2007. A roda servia como diversão, mas também como prática e exercício de choro, local de aprimorar e praticar os conhecimentos musicais, uma troca semanal de informação. Muita gente perdeu o medo de tocar ali naquela roda de choro. Até que a inveja baixou forte, os mesmos comerciantes que não deixavam tocar denunciaram para a polícia. A roda foi impedida, acusada de ser violenta, coisas da ilha.”

 

A ex-prefeita Angela Amin iniciou o processo, tendo até viajado a Nova York durante a gestão de Rudolph Giulliani para inteirar-se das técnicas de repressão inspiradas na lógica da janela quebrada. De fato no município, a tolerância zero importada e a lei do silêncio são camuflagens para a ausência de vontade estatal quanto à tão falada democratização do acesso à cultura. Talvez falte capacidade analógica para perceber que é como com os catadores de latinhas: se organizam pela necessidade, recolhem o que seria lixo e colocam o Brasil na posição de maior reciclador mundial de alumínio. Isso por geração espontânea, sem um plano de governo rígido com finalidades específicas. Se com as culturas autônomas da sociedade civil se fizer o mesmo, a reciclagem da própria sociedade se dará de uma maneira mais bonita. O controle repressivo inibe a capacidade de afeto, que é base imprescindível para um ambiente humano seguro de verdade.

Tratar irrupções criativas na cidade como desvios que devem ser corrigidos parece caminho pouco sábio. Um grupo de tango argentino contemporâneo chamado El Método aportou na ilha em 2011 e sofreu chateações, mesmo enchendo o largo da catedral de uma sacralidade como há tempo não se via. Um trio de chorões uruguaios também sofreu incômodos desnecessários. Um luthier chileno teve as flautas confiscadas arbitrariamente. Tudo isso na rua. Tudo isso na lua em que vivem os déspotas esclarecidos. Que não se informaram sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 e jamais se colocaram a questão da antropofagia, muito menos tomaram consciência da fase mais que nunca patchwork do mundo, em que as sínteses são obtidas com base no fomento à diversidade.

Um pé na Áustria, outro na Ilha de Santa Catarina. Essa é a realidade vivida há décadas pelo gaúcho de nascença Alegre Corrêa, que tem estúdio no Rio Vermelho e sexteto de música instrumental aclamado e lotador de teatros em Viena e adjacências européias. Epopéias aventurosas de indivíduos temerários. Alegre ganhou o mundo, voltou a residir na ilha por opção e noivado em 2012, mas há quem fique na tristeza, a ver mar revolto sem navios que carreguem.

Os argentinos turistas que chegavam aos borbotões, feito revoadas de borboletas, nas décadas de 1980 e 1990, com os penteados diferentes e o portunhol selvagem, não foram os únicos. Ficaram por aqui alguns que tocam bateria em orquestra sinfônica e ao mesmo tempo em grupo de música instrumental brasileira, outros que vão do saxofone à Antropologia com a mesma ginga.

Evoco aqui Aníbal Ernesto Quiroga e Eduardo Ferraro, ambos integrantes do grupo Arreio Sem Freio, com gestação na ilha. O nome é bem adequado: fazem música estruturada, com bons “arreios”, mas cavalgam o som sem recorrer à tortura bucal do eqüino imaginário, no limite da linha entre a liberdade e a disciplina. As composições têm cores pascoalinas (de Hermeto) e também pigmentos de toda a América Latina. Uma das características ímpares do grupo é o uso da baterimba, instrumento percussivo derivado da junção da bateria com a marimba.

Alguém aí já ouviu falar? Ouviu tocar? Arreio Sem Freio! Lançou CD em 2009, que merece ultrapassar mais fronteiras.

Outro exemplar hermano é Marcelo Villena, aprovado em 1º lugar no vestibular para o curso de Bacharelado em Música na Universidade do Estado de Santa Catarina, impedido de ingressar pelas maiúsculas burocracias. Um documento faltante sobre o ensino médio na Argentina, algo assim. Impossibilitado aqui, migrou para Porto Alegre, graduou-se lá e está de volta quatro ou cinco anos depois, a esta altura já em pós-graduação. Já cantou ópera, teve grupos de tango-rock-progressivo em Buenos Aires, peregrinou em estado de inanição pelo nordeste brasileiro, deu aulas de canto em uma igreja e aulas de tai chi chuan. Lembro dele lendo o I-Ching, a Divina Comédia, fumando um cigarro depois da prática do tai chi, com incoerências geniais e muito bem assumidas. Longilíneo, voz grave, risada gorda. Fez no site que dá origem a este livro um relato em palavras. Aspas para Marcelo Ricardo Villena, em quatro partes:

“Postagem 1: A ilha em agosto-setembro de 1992

Bom. A primeira temporada que fiz na ilha foi em agosto-setembro de 1992. Lembro que vi o especial de 50º aniversário de Caetano, o “leão de fogo” que sem a terra “se consumiria”. Naqueles tempos a noite da ilha era extremamente informal e…. BOA!! Lembro que nenhum dono de bar se surpreendia se eu pedia cachê… Isso era normal. Também tinha uma coisa boa que era que havia lugares em que aceitavam o trabalho no formato que o artista quisesse dar. Hoje, o ambiente da ilha é (supostamente) mais “profissional” mas asquerosamente inclinado aos trabalhos de “macaqueada”, o dito “cover” que eu, pessoalmente detesto. Uma anulação do eu do artista… Lembro que eu (naqueles idos tempos) fazia shows que misturavam canções próprias sobre texto meu ou de poetas (Rodrigo de Haro, Neruda, Nicolás Guillén), tangos argentinos, MPB, rock e…. FRANZ SCHUBERT à capella!!!

Nenhum dono de bar fazia a menor objeção a meu repertório. Aceitavam o “louco” que tocava sem amplificação. A noite da ilha era pitoresca. Mas tinha espaço para fazer coisas muito interessantes.

Havia uma abertura que hoje, em função de um suposto “profissionalismo” não é possível.

Naqueles momentos não mandava o dinheiro, mandava a vontade de se divertir.

A ilha continua linda…mas…perdeu esse encanto folclórico que tinha. Para mim agora virou uma extensão de MOEMA. E aquele suposto profissionalismo… Bom. Eu não tenho carro. Eu não tenho aparelhagem de som. Eu não posso tocar na noite de Floripa hoje porque não tem bares com aparelhagem própria, salvando honrosas excessões (PONTO DE eVISTA é um belo exemplo). E fica pior se pensarmos que alguns desses lugares selecionam trabalhos de “macaquinhos” de alguém que toca no rádio.

A ilha em 1992, além de ter muita mais natureza, além de poder deixar uma bike no centrinho da lagoa sem cadeado e voltar no dia seguinte pra pegar, tinha uma noite pitoresca, divertida, com muito trabalho musical ruim, mas com coisas surpreendentemente originais.

Postagem 2: A ilha de 1996 a 1999

A noite da ilha nesse período começou a sofrer mudanças. Começou a se usar o esquema de cover artístico, pelo qual o músico é sistematicamente roubado pelos donos de boteco. Eles geralmente repassam menos do que deveriam repassar, além de fazer o músico trabalhar sobre risco. Nesse período fiz um show de tango argentino chamado “O Tango no Desterro”, com Marcelo Gasparini no baixo, Diogo de Haro na sanfona, Toicinho no piano elétrico e Anibal Ernesto Quiroga no violão. Eu cantava. O repertório eram tangos argentinos tradicionais: Gardel, Razzano, Flores, Discépolo, Mores, Contursi etc.

Não durou muito. Não tinha público para isso. Em tese na ilha tem gente que gosta de tango. Mas talvez gostariam de show com bailarinos. Uma mega produção. Nosso show era centrado nas canções e (coisas do nossa mente colonizada) a língua se torna um impedimento.

Coisa que não acontece quando a língua cantada é o inglês. O espanhol cria mais empecilhos que o inglês… Não entender um rock é perfeitamente normal e não impede sua fruição. Não entender espanhol impede a fruição, parece. Mas bom. Após esse show fiz alguns outros misturando diversos estilos. Mas passei a me dedicar mais à docência e ao ambiente da música clássica, que era um ambiente incipiente.

Postagem 3: 2002-2005

Nesse tive duas atividades: música erudita e o show Poetas.

Na música erudita participei de óperas (La Traviata, Madame Butterfly e Cavaleria Rusticana). Isso é muito bom. Floripa tem uma ópera por ano garantida, coisa que não é tão usual em cidades brasileiras de maior porte. A ilha tornou-se uma referência pelo Festival Aldo Baldim. Também cantei no Polyphonia Khoros e no grupo de música antiga Cantus Firmus, ambos referência de música erudita feita com seriedade e profissionalismo. São sinais do progresso da ilha nessa área.

No âmbito popular apresentei meu show Poetas, que é feito de canções próprias sobre textos de autores catarinenses: Rodrigo de Haro, Dennis Radünz, Lindolf Bell, Maria Senna-Pereira, Cruz e Souza. Foi um show de canções com uma boa dose de experimentalismo, influenciadas pelas minhas aulas com Marcelo Birck. O show era produzido por Glória Celeste. Surpreendia a irritação de alguns donos de bar quando Glorinha chegava com um contrato para eles assinarem…. Gloria fez um ótimo trabalho que valeu uma boa visibilidade ao show. Reflexo disso é minha inclusão no “Dicionário da Música Catarinense” do NEPOM, que tu, certamente, deves conhecer:

http://www.dicionarionepom.ufsc.br/marcelo.htm

Isso é obra da queridíssima Teresa Virgínia de Almeida, professora das letras.

Outro cara que foi “ALTOX PARCEIRO” foi o gaúcho Cesinha Espíndola com as portas sempre abertas do seu PROJETO COOMPOR. Cesinha fez um trabalho de divulgação da produção autoral que foi maravilhoso.

Aliás, vi extensões disso na última ida à ilha: um CD muito bacana!! Cesinha é um cara indispensável na ilha… Algum dia deverá ser feito um monumento a esse boêmio de lei….

Poetas rendeu também a parceria maravilhosa com Dennis Radünz, poeta dos labirintos das palavras, Dionísios vivo!! Hoje mora na casa de Mnemosyne da Fundação Franklin Cascaes. A parceria está viva e continuamos fazendo coisas juntos e com a cantora Júlia Muniz.

Outro louco lindo desse período fantástico é o Raja Rama. Argentino com cara de indiano, e que canta seus bajans como um autêntico indiano. O único problema dele é ser torcedor de Racing Club de Avelleneda…mas…fazer o quê? Todo mundo tem um defeito… Participei nos seus shows cheios de doce espiritualidade tocando flauta doce e violino.

Em 1995, escondido no meio da mata do Itacorubi, compus Vidala, um show que teve muita influência do convívio artístico com Beatriz Tironi Sanson. Ela ajudou muito de forma não direta. Aliás: lê o TCC dela de jornalismo (UFSC) sobre o Bar do Frank, o saudoso Underground. É fantástico!!

Postagem 4: Verão 2010-2011

Dessa vez passei pouco tempo.

Apresentei o show Vidala. Era uma dívida com a ilha. O show que nasceu aí, não tinha sido tocado ainda. Foi no Saint Germain Pizzaria, no Olho Mágico (espaço fantástico de encontro entre artistas) e na Casa das Máquinas do Casarão da Lagoa. A Casa das Máquinas foi aberta pela queridíssima Lilian Schmeil que apoia sempre o que tem de bom dando volta. Retomei a parceria com o Dennis Radünz (surgiram novas músicas sobre seus poemas), conheci o malucão do Diego de los Campos, gênio das imagens e dos sons e fiz o CD “Ilha de Santa Catarina Soundscapes by Marcelo Villena”. É um trabalho de “sons achados” no Morro da Lagoa, Ribeirão da Ilha, Barra da Lagoa e o Poção.

É isso aí.

Daqui a pouco volto para agitar mais com essa queridíssima gente ilhoa, sempre tão disposta a pirar bem. A ilha não é o paraíso das artes. Lamentavelmente o poder público (onde contamos com alguns aliados) não apoia na medida que seria necessário. Alguns projetos ficam truncados. Mas a ilha tem ótimos artistas e estão acontecendo coisas. Mais a partir dos esforços pessoais do que pela iniciativa “oficial”. Salve a ilha!! Tão viva!! Tão cheia de gente criativa!! Tão inspiradora com suas “belezas sem par”!! Salve o Zininho!! Salve o Toicinho!!”

 

 

 

 

Harmonia sem Cronologia*

*Título de música de Hermeto Pascoal

A Ilha de Santa Catarina, além do nome beato, tem também muitos terreiros afros (mais de mil na Grande Florianópolis). Samba, Choro, Música Instrumental Brasileira, os Ternos de Reis resgatados pelo Bernardo Sens no Sul da Ilha. O som do Orocongo do Seu Gentil, que virá a ser documentário de Iur Gomes e Osvaldo Pomar. Maracatu, Forró, for all.

Existe aqui uma única faculdade de Música, com opções de bacharelado e licenciatura, cuja ênfase é na vertente erudita. Há movimento pela criação de um Bacharelado em Música Popular na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), que abriga as graduações existentes, pouco brasileiras, pouco populares.

Atitudes corajosas de alguns professores hereges possibilitam a interlocução com a chamada Música Universal, de linhagem Hermética, espalhada pelo contrabaixista Itiberê Zwarg, cujas vindas acontecem em ciclos que se repetem há mais de dez anos. Vieram, voltaram e voltarão. Ele e a trupe. Antes Itiberê Orquestra Família, agora Itiberê Zwarg e Grupo.

O próprio Hermeto também já esteve na cidade várias vezes. Na década de 1990, fazendo show no CIC (Centro Integrado de Cultura), sobre o qual ouvi a história de que formou um séquito que em procissão acústica desbordou o centro e integrou a cultura à periferia do teatro, em plena rótula, no meio do trânsito. Em 2008 tocou acompanhado de Aline Morena, ao ar livre na mesma Praça Bento Silvério, na Lagoa, que abrigou a roda de choro e é lugar de ensaios ao longo do ano do antigo bloco e atual escola bicampeã União da Ilha da Magia. Que mobiliza os integrantes da bateria em ensaios cuja periodicidade semanal cresce até a diária, proporcionalmente à aproximação do carnaval.

Take 2

Que agora, neste fevereiro de 2012, já ficou para trás e começa a se distanciar enquanto o ano flui rumo à nova virada e mais uma nau da carne. Todas convenções gregorianas, convenções profanas. Um conceito que li citado pelo Zé Miguel Wisnik é o de “iluminação profana”, cabível a várias situações de epifania terrena, que vem a ser o que acontece ao ouvir música. Ascensões celestiais também, além das escavações profundas.

Estávamos no carnaval, que passou. É em março que o ano realmente começa na cidade. Acontecem manifestações musicais variadíssimas, consistentes, flexíveis ao mesmo tempo, orgânicas, polissêmicas, alentadoras e mutantes. Que confusão, pensará o leitor agora.

Existe por aqui um paradoxo: as coisas acontecem muito rápido porque as coisas acontecem muito lentamente. Explico: a duração no tempo é curta, o fenômeno acontece rápido, os recursos monetários afluem devagar como remuneração pela arte. Costumamos ter uma visão romântica do artista, ainda assim muitos nessa condição pagam aluguel, andam de ônibus, táxi ou enchem o tanque, absolutamente todos comem e vivem processos fisiológicos existenciais idênticos ou muito semelhantes a qualquer pessoa, do bocejo ao pum. E como diria algum realista, “Neste mundo capitalista, tem que ganhar dinheiro e se sustentar”. Enquanto a arte não remunera o justo, muitos artistas emigram em busca de melhores acolchoados materiais ou transitam a atividades mais sóbrias que pagam o mínimo necessário para a subsistência.

Arte é lapidação, tempo, convivência quando se trata de música feita em grupo. Quando vemos um artista no palco, poderíamos lembrar que aquelas horas de espetáculo são só a ponta do iceberg, tendo como base submersa dias e dias de ensaios ou experimentação coletiva, bíceps fortalecidos pelo transporte de caixas, instrumentos, mesas e periferias, horas e horas dedicadas também ao comum trabalho de autoprodução, divulgação na internet, busca de apoios e tudo o mais. Almas em chamas que não queimam, derretem, sempre. Isso enquanto o anzol da penúria não lança rasga essa harmonia universal que acontece sempre que alguém consegue fazer o que gosta da vida. Fora da água qualquer peixe ofega.

Ao falar disso me vêm vários nomes, acasos, há casos que não são isolados, uns nadando outros alados, ao lado, à margem da régua de Chronos: Toucinho Batera, Quarteto Rio Vermelho, Trio Ponteio, Bando Muiraquitã (era um autodeclarado bando, não uma banda), Cangaia, Felixfônica, Margem Esquerda, Dr. Cipó, Trio Butiá, Cravo-da-Terra, A Corda em Si, Somato, Sonora Parceria, Tatiana Cobbet e Marcoliva, Karibu Trio, François Muleka, Gustavo Messina, Sito Lozzi, Mari Leonel, Alegre Corrêa (um pé na Áustria), Bebê Kramer (um pé no Rio). Tudo gente “de fora” e muito de dentro ao mesmo tempo. As pessoas são do lugar em que querem ser/estar e fazer a vida.

 

Outro dia

Este texto segue, e hoje é outro dia.

Sempre é dia da alteridade, do outro. Sempre é ao outro que a luz do dia ilumina, desfazendo a noite da minha ignorância. E os comentários na seção CO[R]RELATOS já me deixam propenso à autocrítica quanto ao que escrevi antes. Talvez tenha dito coisas descabidas na Introdução (im)provisória. Sempre é bom contar com o que os outros contam.

Jean Mafra, cantor e compositor da cena independente da cidade envolvido com as articulações político-poéticas e performáticas, afirmou em comentário no Take 1 publicado anteriormente que o cover tem um papel importante no sustento da economia da música. Respeito as minúsculas dele ao citar, porque é assim que prefere. Ele disse:

“então, demorei para me manifestar por alguns motivos:

a)     o texto é longo e merece certa calma e reflexão (sua poeticidade/prolixidade dispersa), daí melhor é deixar a pressa para depois.

b)     de certo modo, felipe, sua fala não deixa muito espaço para um interlocutor. ela afirma aqui, pergunta acolá, mas, de modo geral ilumina pontos com uma precisão que se bastam. note, isso é, antes, um elogio – que fique claro.

de todo modo e todavia e porém, deixo aqui meu relato pessoal.

sou alguém que (com outros, claro), já há alguns anos vem articulando politicamente com a categoria, músicos/produtores/adjacências, e com o poder público e, conforme venho caminhando, cada vez mais me sinto cansado disso tudo… sei lá… atualmente penso, fiz e faço e farei o possível, no mais, quero mais é construir as minhas pontes, meu espaço. sim: “meu”. mas de quem mais quiser vir comigo. do modo que der. mas com alguma solidão e nenhum egoísmo. se não estou sendo claro, tomemos uma cerveja. ela antes, e depois, do almoço é muito bom para ficar pensando melhor…

agora, de todo modo, como teu olhar se lança sobre um cenário musical que, embora eu conheça e admire, não é aquele com o qual tenha intimidade, não sinto que tenho muito o que acrescentar… ainda assim, faço um reparo: esse “universo cover”, tão poderoso por aqui, embora não me seja caro, é importantíssimo para economia da música feita nesta terra. no mais, não vejo tanta diferença entre esse (mundo) e um outro, o dos sambas e choros e suas “raízes”. para mim (salvo as exeções) é tudo celebração ad infinitum d’um passado idealizado.

por mim, aquele abraço e a torcida pelo desdobramento da conversa.

p.s. com eduardo ferraro, césar félix e guilherme ledoux, não tem como este espaço não parecer atraente.”

Concordo, o cover é uma cobertura, e existem muitos músicos que o fazem muito bem, superando até os originais. Mas diferencio a execução que trata de se assemelhar ao máximo à versão mais batida, mantendo o conforto do conhecido, música de supermercado, daquela outra sublime, que propicia o prazer da descoberta justamente pelo deslocamento a um ponto descolado que torna o fazer sonoro mais composição flexível sobre uma referência do que repetição maquínica regida por um molde rígido.

A grande questão é, talvez, o resgate de alguma transcendência. Guilherme Gouvêa é poeta, violonista, cantor e compositor na Felixfônica, banda que lida com as manifestações populares do Brasil. Guilherme disse, na rede social mais popular e usada em 2012:

“Pena que na época do Cangaia não tinha isso. Era VHS e todas as que compramos mofaram, nem pra mãe mostrar pras tias que moram longe e perguntam daquele filho cabeludo e maconheiro que tocava rock universitário. Acho que ela dizia que era rock porque forró pega meio mal até hoje. Mas voltando à cena, ela está em construção, tem gente legal fazendo merda, gente especial com camisa de força, eventos pipocando, feijoada do cacau bombando, economia local crescendo, pavimentações. Acho que em 20, 30 anos nós cairemos na real de que aquela releitura de Garota de Ipanema deveria ser em mi bemol.

O pior de ir num lugar com compositores é ver três ou quatro da platéia cantando e o resto falando alto porque o som atrapalha. Acho que esses lugares devem ser frequentados por mães, namoradas e os melhores amigos.”

Embora a poética visceral do discurso dele me impeça a segurança de ter entendido bem o que disse, acho que entre outras coisas lamentou a barulheira que se instala em muitos ambientes que têm música ao vivo. Compartilho do desconforto. As experiências mais sublimes de audição musical me aconteceram em teatros ou lugares em que o espetáculo tinha o foco central, sem o som de liquidificadores e bandejas se intrometendo ou falatórios eufóricos sobre temas alhures na mesa ao lado.

A entrada em algum estado de transe costuma acontecer mais facilmente se o contexto colabora. Me veio à mente agora o caso do violinista Joshua Bell, que foi posto a tocar numa estação de metrô de Washington, nos EUA. A situação mostra bem o quanto é importante o reconhecimento. O músico é amplamente louvado pela crítica e pelo público, e ganha algo próximo das dezenas de milhares de dólares por mês. No metrô, foi anônimo e teve a atenção temporária apenas de algumas crianças que retinham as mães para ouvir o som, além de um senhor que parou alguns minutos. O violinista declarou mais tarde que sentia alegria quando as pessoas deixavam uma nota de um dólar em lugar de simples moedinhas.

O Teatro SESC Prainha, com apenas cem lugares, foi o palco no qual vi mais música autoral na cidade. É de se pensar porque a proporção de espaço no SESC Prainha dedicado ao esporte (ginásio) tem capacidade para várias centenas enquanto o que serve à arte (teatro) tem que se contentar com apenas uma. É louvável o que acontece naquele lugar e os circuitos musicais que o SESC fomenta em todo o estado de SC, alimentando os músicos com algum provento e arejando com oxigênio o fogo criativo que, com sustento, tem chamas mais flamejantes. A pergunta é apenas como, tendo público e boa programação, o anfiteatro fica limitado a um número tão pequeno de cadeiras, em uma cidade que conta com população flutuante entre meio milhão e duas ou três vezes essa cifra dependendo da época do ano.

Muitos artistas que insistem na busca de caminhos insulares, se tivessem sido descobertos e produzidos na Europa (talvez ainda mais antes da crise) ou no Japão estariam com os bolsos cheios ou pelo menos com vida digna. Por aqui ficam juntando migalhinhas. Isso acontece por diversos motivos e um deles, menos mal já em transformação, é a postura pouco ética de muitos donos de bares e casas que oferecem música ao vivo. Entre outros problemas, são comuns a ausência ou precariedade de equipamentos de sonorização, o não pagamento de cachê fixo e a aferição unilateral (pelo contratante) do dinheiro arrecadado com couvert artístico, que deveria ser repassado integralmente, como diz a lei. É usual a reclamação dos músicos quanto à diferença entre o que imaginaram ter sido arrecadado certa noite, pela quantidade de público presente, e o que receberam ao fim do show, aquém.

Aí vale perguntar: de quem é a responsabilidade? Poderíamos arriscar como resposta que é compartilhada. A conivência dos artistas, seja por necessidade, seja por falta de autoconfiança, é que mantém as condições injustas.

Existem outros artistas que conseguem ter uma produção (ou autoprodução) mais eficaz, delimitam bem os critérios do respeito para não ficar à mercê de situações abusivas e conseguem sustentar-se razoavelmente bem com a música que fazem.

Rodrigo Piva, compositor ilhado, lançou em 2011 o álbum Na Garganta do Artista, faz um relato interessante:

“Ilha da Música Ilhada…. confesso que esse ótimo título me instigou a tecer alguns comentários sobre os meus 22 anos de cidadão/músico ilhéu (aportei por aqui em 1990).

Gostaria imensamente de poder falar sobre a evolução cultural da Ilha na última década, dos nossos avanços no panorama nacional, do nosso reconhecimento como um Estado produtor de cultura e arte, etc, etc.

Mas, sempre tem um mas!…. O que se vê hoje em dia? Música de barzinho? Músicos pagando pra tocar? Donos de bares mandando no pedaço? Cachê, quando muito, de 100 pilas?

Justiça seja feita, tem muita gente séria e talentosa neste pedacinho de terra perdido no mar, ah se tem! E outra surpresa: tem um enorme público ávido por espetáculos de qualidade feitos por gente daqui, que raramente acontecem. O que está faltando para a felicidade ficar completa? Quem souber, me diga! Percebo apenas que andamos largos passos para trás nos últimos tempos. Por quê? Quando cheguei por aqui, os músicos tinham espaço na imprensa. Até tocavam nas rádios! Vários bares incluíam na programação música instrumental de alto nível. A avenida Beira-Mar tinha vida noturna e música ao vivo…

E hoje? O que sobrou? Carregar caixas de som e o público para bares barulhentos, pra ganhar uma merreca no fim da noite? Será esse o destino do músico ilhéu? Não creio. É hora de elevar nossa auto-estima e dar-se ao respeito. E isso vale muito para o público, que muitas vezes desconhece e deprecia os seus próprios artistas (uma vez o dono de uma loja de discos me disse, com todas as letras: “Canso de colocar os CDs pra rodar aqui na loja. Alguns clientes escutam, gostam e perguntam quem é. Quando eu respondo que é um artista daqui eles perdem o interesse…”).

Então, viva a internet, vivam os blogues, sites e redes sociais, que nos permitem resistir, sobreviver e aparecer, dando uma banana para o boicote da mídia radialística tupiniquim, que toca música da Indonésia e da Austrália, mas, por regra, ignora toda e qualquer produção local, por melhor que seja.”

 

Os espaços culturais públicos tampouco são muitos. Existem alguns teatros na cidade. É mais comum ver espetáculos de música autoral no Teatro da UFSC, Teatro da Ubro, Teatro Álvaro de Carvalho – TAC, Centro de Cultura e Eventos da UFSC, e no saudoso Teatro Ademir Rosa, que fica no CIC (Centro Integrado de Cultura), fechado para uma reforma que nem sequer estava licitada, desde 2008.

Também me ocorre traçar uma relação entre a má mobilidade urbana na cidade de Florianópolis e o número de consumidores de arte, que fica abaixo do potencial. Muitas das apresentações acontecem durante a noite, com início entre as 20h e as 23h. Costumam durar entre duas e quatro, até cinco horas dependendo do contexto.

As linhas regulares de ônibus deixam de circular por volta da meia noite ou pouco mais. Depois existem os ônibus chamados madrugadão, meia dúzia de linhas ao longo da madrugada, mas com itinerários que não cobrem todos os bairros. Além do mais não existe – e estamos numa ilha – transporte coletivo marítimo. O táxi é caro e os consumidores de arte que se arriscam em aventuras ciclísticas noturnas são raros, para além dos testes de bafômetro. Muitas das pessoas que formariam o público mais assíduo da cena musical ilhôa não pertencem às classes sociais que têm acesso aos carros. Portanto é de se pensar essa relação.

 

Generosidade intelectual e crowdfunding

Podemos ir pela via da falta, de apontar as ausências ou carências, mas também é possível enveredar pela visão clara do que já acontece. E acontecem muitas coisas.

Algumas delas passam ao largo dos modelos tradicionais de viabilização econômica. O crowdfunding, ou financiamento colaborativo, serve como trampolim para os grupos e artistas que mergulham numa trilha autoral em vez de apostar na repetição. Alguns projetos originados em Florianópolis já passaram pelo site Catarse. Um deles, bem-sucedido, foi o de gravação do CD do Sonora Parceria – Música Súbita, formado pela dupla Tatiana Cobett e Marcoliva, que já tinham convivência estreita antes entre si, com os jovens Rafael Meksenas, Larissa Galvão, Mateus Mira, Pedro Loch e Rafael Calegari.

O grupo Cravo-da-Terra fez uma tentativa de arrecadação, também via Catarse (a plataforma de financiamento colaborativo de projetos criativos mais reconhecida no Brasil), para gravação do CD Verde Longe. Eles obtiveram por volta de um terço do valor esperado. O mecanismo prevê que o proponente do projeto só recebe os recursos se a arrecadação equiparar ou ultrapassar o valor estipulado (por ele próprio). Quando isso não acontece, os doadores recebem o valor de volta ou o transformam em créditos, para apoiar outros projetos.

Neste momento, por exemplo, é benéfica a conjunção de muitos aspectos novos da realidade cultural brasileira para um músico que há anos labuta e busca espaço na ilha: François Muleka. Em março e abril de 2012 realizou a campanha de financiamento coletivo do 1º CD dele, “Feijão e Sonho”.

Fez um relato com memórias musicais:

“Entrando aqui, me deu vontade de relembrar o memorável bar Jogral na cabeceira da ponte Hercílio Luz. Sempre sons de qualidade, e figuras das mais interessantes da ilha. Tive o prazer de pegar os últimos anos do bar… hoje não sei por onde anda o França, mas o lugar era lindo e tinha aquela vista maravilhosa para a ponte e para o mar, além da sopa. É um lugar onde tenho presas boas memórias de minha chegada na ilha e dos inícios de trabalho com música por aqui junto com o João Amado.

Acho que hoje virou uma rádio. Aquele lugar sempre rendeu boas histórias, e se eu peguei a finaleira do bar, tenho certeza que os amigos por aqui vão poder contar poucas e boas. começo com uma:

Certa vez tocando com o Amado, chegou um pessoal pelas 3h30 da manhã (horário de pico do local huahauhau). Era um grupo de respeitáveis senhores e senhoras, em clima de “encontro da turma de jornalismo de 63″. Pediram que tocássemos Pais e Filhos. Eu, que sou super fã da Legião Urbana, toquei feliz da vida… foi lindo ver aquelas pessoas juntas abraçadas em clima de natal, de mãos dadas cantando “é preciso amaaaaaaaar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Se filmássemos com uma 7D, daria uma linda propaganda de natal. Logo em seguida, pediram que o Amado tocasse uma do Ney Matogrosso. Ele tocou Bandoleiro… pois me bastou piscar os olhos e lá ia uma baita briga entre eles… não acreditamos no que acontecia… “segue tocando, disse eu pro amado”… depois “eita, deu briga mesmo.

Pedimos pra parar e, claro ninguém deu ouvidos. Resumindo, o senhor que foi o primeiro a agredir, tinha um Audi preto estacionado na rua em frente. O senhor que foi agredido, foi até a rua, pegou uma chave de fenda e arranhou com vigor e tenacidade um Audi preto perto do bar. Minutos depois ele entra no bar e diz, “tá aí! agora destruí teu carro, bonitão!.

Daí empurra-empurra e tudo quase-de-novo. Logo em seguida chega a polícia e mais uma dezena de pessoas de pijama, moletom furado de dormir etc… um senhor de bermuda curta tipo seleção brasileira dos 70 com um sapato “moca-sim!” disse pro policial “é ele… eu tava fumando na janela do apartamento e vi este homem danificando meu carro”. Explicando: o carro do senhor-agressor estava estacionado mais à frente… então todos nos demos conta de que o carro danificado era de uma pessoa que não tinha nada a ver com a situação toda e estava fumando na sacada de seu ap enquanto um maluco arranhava seu carro. No dia foi uma sensação muito ruim de presenciar aquilo… mas depois ficou a parte da comicidade da situação. Alguém tem outra sobre o Jogral?.

François integra, além de outros grupos, o Karibu Trio, que vem conquistando bastante platéia (acentuada e nem sempre sentada) com composições próprias. Os produtores dele são Andrea Rosas e Luiz Henrique dos Santos, santistas radicados na ilha que encabeçaram a Porão de Pedra durante alguns anos e agora a metamorfoseiam em Parolema. Têm colaborado com o grupo de choro autoral Ginga do Mané, com o próprio Muleka, além do baterista Toucinho e da poeta Ryana Gabech no espetáculo performático Zunido de Poema, que circulou o estado em 2011. Entre outras coisas, esse casal de produtores já articulou espaço em área do centro para o projeto Travessa do Samba, que foi interrompido por proibição governamental. O público submetido ao poder. Luiz Henrique deixou um bom relato sobre o tema:

“Em setembro de 2011, eu, Luiz Henrique, Andrea Rosas, Grupo Projeto Nosso Samba representado pelo Alvinho Carioca, Bira Pernilongo, Velha Guarda da Protegidos da Princesa e Instituto Arco-Íris criamos o projeto Travessa do Samba. A idéia era divulgar os compositores de samba em Florianópolis e contribuir para a revitalização do centro histórico.

Todo sábado os integrantes da Velha Guarda da Protegidos junto com o grupo Projeto Nosso Samba se revezavam para apresentar sambas de compositores da região dentro do espaço cedido pelo Instituto Arco-Íris lá na travessa Ratclif no Centro.

Para quem não sabe, nessa mesma travessa fica o Bar do Noel, local tradicional de encontro de sambistas, que contrata, ou contratava, assiduamente grupos de samba para se apresentar enquanto servia uma deliciosa feijoada. Pela travessa Ratclif passavam os blocos de carnaval antigamente.

Ela fica bem perto do terminal de ônibus antigo e depois da criação do TICEN ficou deserto. O projeto era perfeito. Começava às 17 horas, bem depois da apresentação do grupo Bom Partido no Bar do Noel. Todo o pessoal do bar ia direto pra lá assistir o Projeto Nosso Samba junto com o Bira Pernilongo e a Velha Guarda da Protegidos cantar seus sambas. Até tocavam sambas famosos mas a maioria era composições do Tião, Alvinho, Bira, Velha Guarda, Julio Maestri além de cantar sambas-enredos de várias escolas daqui.

Estávamos submetendo o projeto às leis de incentivo a cultura e/ou financiamento coletivo a fim de angariar fundos para pagar os músicos, convidados, produção, limpeza e banheiro químico.

Mas um dia alguém reclamou do “barulho” e essa reclamação virou uma liminar endereçada aos proprietários de bares da rua e ao Instituto Arco-íris proibindo qualquer manifestação musical naquela rua…

O projeto teve que de ser interrompido.
Há alguns registros interessantes sobre a idéia.”

http://travessadosamba.wordpress.com
https://www.facebook.com/travessadosamba

 

Sabemos que nesta cidade acontecem festas de arromba em casas de bairros de classe média, média-alta ou alta, sem que se interrompam, mesmo com a tal lei do silêncio, que proíbe ruídos acima de certo nível de decibéis a partir das 22h. Tudo, mais uma vez, depende do contexto e de critérios muito arbitrários.

Um dos exemplos de situação em que a música acontece em espaço público e em parceria com a comunidade é o Floripa Instrumental, evento que aconteceu pelo menos seis ou sete vezes, As duas últimas edições, em 2009 e 2011, que presenciei, aconteceram na Freguesia do Ribeirão da Ilha, ao lado da igreja e do centro comunitário, no qual se serviam frutos do mar em diferentes versões, preparados pelos moradores do bairro. O nome do produtor desse evento é Floriano, muito bem falado no meio musical pela correção com que trata os artistas. Esse evento dá espaço expressivo aos talentos da música instrumental da ilha, do choro ao jazz, passando pela big Banda da Lapa do Ribeirão, que faz um trabalho muito relevante envolvendo os jovens daquela comunidade, com arranjos energéticos para músicas populares. A entrada é gratuita e no Floripa Instrumental já tive o prazer de ouvir e ver Naná Vasconcelos, Arismar do Espírito Santo, Toninho Horta, Gabriel Grossi, Trio Madeira Brasil, Nailor Proveta, Yamandú Costa, Alessandro Kramer e Toninho Ferragutti, entre muitos outros. O ambiente propicia diálogo musical intenso nas Jam Sessions que se estenderam do fim da noite até o meio da madrugada e foram capitaneadas pelo guitarrista Cássio Moura, generoso no rodízio. Que acontece e não necessariamente é de pizzas, assim como a sequência não se limita ao camarão.

Take 3

Interlúdio das lágrimas

Os ouvidos podem produzir cera, mas também podem ser dutos indiretos das lágrimas. Escrevo de olhos úmidos. Ouço as músicas que me chegam. Apelo feito, apelo atendido, como prece ou promessa. Já estão aqui, prontos para entrar no CD, arquivos com as criações sonoras de vários artistas e grupos da Ilha. Tatiana Cobbett e Marcoliva, primeiro sós, com Soletra, e em seguida acompanhados da trupe jovem da Sonora Parceria com Meliante. Energia e tanto.

A letra de Meliante:

E isso num dia em que mais cedo já descobri Musadiversa, a cujo show no Teatro Álvaro de Carvalho não pude ir em 2011, projeto vivíssimo do Felipe Coelho com Luiz Gustavo Zago, Mauro Borghezan, Rafael Calegari e Maycon Souza. Música instrumental brasileira tecida com fios de ouro, mas não o das jóias da ostentação, sim aquele obtido nas experimentações alquímicas.

Outra criação musical apreciada hoje foi Brincadeira, do violonista Luis Canela, que além do trabalho solo integra também a banda Felixfônica e as manifestações populares do Brasil. A delicadeza benévola da composição ao violão dele é tocante.

Passam alguns dias e só se adensa a tempestade de ideias. Corre o tempo, segue a navegação e constato que a criação coletiva vale mais que a grande obra de qualquer indivíduo. Entrevisto Alegre Corrêa. Isso no dia 12 de março de 2012. À tarde, num café chamado Compasso. Nos encontramos na escola de música da Silvia Beraldo, a Compasso Aberto, a meia quadra do café.

A sede de cultura e arte foi tema da conversa, que extrapolou os limites da ilha e chegou a declarações surpreendentes de um músico artista que estava fora da cidade há mais de 20 anos, tendo na juventude tocado, entre 1980 e 1983, num grupo de música instrumental brasileira que marcou época.

Segue a conversa:

 

Felipe Obrer: Pelo que estávamos falando antes, estás desde a década de 80 aqui, é isso?

Alegre Corrêa: Estou. Eu vim para cá em 1980 mesmo. A gente veio para visitar um amigo (…)

 

A conversa foi muito elucidativa.

A partir de alguns questionamentos que o Alegre, sério, propõe, podemos repensar o cenário musical ilhéu e o panorama cultural brasileiro como um todo.

 

Take 4

Estou num táxi, dirige um taxista carioca chamado Otávio chegado à ilha há quatro meses, de operador cinematográfico no Rio a motorista bandeirante em Floripa. Uma tela sensível ao toque ao lado do retrovisor central. Michel Teló é a atração, demoro a perceber. Sou míope e astigmático. Mas reconheço o penteado, de alguma chamada para página dedicada a celebridades em sites de notícias. Até então havia passado a vida incólume a essa influência sonora. Quando comento com o taxista Otávio que jamais havia visto ou ouvido o tal Michel cantando, ele diz algo do tipo “Tá tirando uma com a minha cara, né? Vocês têm certeza que moram nesse planeta?”. Explico que não temos televisão em casa. Dizemos que preferimos sem música, já que Michel Teló não é muito nossa praia, o que motiva a troca do DVD. Somos presenteados com um show da cantora sertaneja Paula Fernandes. Otávio diz que se quisermos trocar podemos até descer do carro. Difícil não ser irônico: maravilha.

Teló não me caiu pior nem melhor que qualquer outro representante da música chamada superpopular. Esse nicho em que cabem sertanejos universitários que jamais frequentaram outra academia além da de ginástica, pagode estilo programa televisivo dominical e axé music, cujo nome carrega expressão que, em outro contexto, significa uma espécie de benção energética ancestralmente africana.

A cidade de Florianópolis tem muitos negros. A cidade que se chamava Desterro tem favelas. A cidade tem uma ponte chamada Hercílio Luz intransitável. As outras duas vivem engarrafadas. Nenhum (oxi)gênio sai da lâmpada.

Empadinhas de camarão?

Relatos, relatos.

Silvia Beraldo, musicista e diretora da escola de música Compasso Aberto:

“Vim para Florianópolis nos anos 80, movida como muita gente que aqui está, pelo encanto dessa ilha, naquela época, ainda mais paradisíaca. Saindo de São Paulo, confesso que a adaptação à vida cultural da cidade não foi fácil.

Desde lá venho inventando maneiras de realizar a minha profissão musical por aqui: criei a Banda de Baile “Quebra com Jeito” que teve momentos áureos com a participação ilustre de Neide Mariarrosa, grande diva e querida amiga que partiu no começo dos anos 90. Alguns músicos que participaram dessa banda são ainda meus parceiros musicais como Fidel Piñero, Aurélio do trombone e Denise de Castro.

Sempre tocando nos bares, um lugar inesquecível onde rolava som era o “Lugar Comum”. Por ali, além dos músicos da terra, pintava todo mundo que chegava na ilha: Raiz de Pedra, Renato Consorte, são alguns que me lembro.

No começo dos anos 90 passei 2 anos nos Estados Unidos e quando voltei senti a necessidade de criar a “Compasso Aberto-Escola Livre de Música”, um espaço para formação de músicos através de cursos regulares, workshops e shows. Por ali já tem passado muita gente: Toninho Horta, Guinga, Nenê, Borghetti, Ian Guest, Marco Pereira, entre outros.

Em 2005 convidamos Tavinho Moura para uma participação no show dos dez anos da Escola, no teatro do CIC.

Através do projeto “Quintas Instrumentais” idealizado pelo guitarrista Wslley Risso, vários grupos locais se apresentaram na Escola: Grupo Ponteio, François Muleka, A Corda em Si, Arreio sem Freio e muitos músicos como Rafael Calegari, Mauro Borghezan, Victor Bub, Silvio Mansani, Wslley Risso entre muitos outros.

Agora estamos organizando uma oficina com Alegre Corrêa. E assim vamos, mão na massa!”

Silvia Beraldo

Na Ilha de Santa Catarina acontece também, há anos, um cruzamento interessantíssimo da poesia com a música. O poeta César Félix dá mais detalhes no depoimento à continuação:

“Deixo aqui um breve comentário sobre minha experiência pessoal com arte e música na Ilha. Cheguei na ilha em 1996 e parti em 2009. durante esse período participei da várias atividades e movimentos, vou usar a ordem cronológica para um melhor entendimento.

Cheguei na ilha em 1996. Entrei na UFSC em março de 1997. O movimento musical na UFSC era agitado, todos os finais de semana acontecia festa no bosque do CFH (Centro de Filosofia e Ciências Humanas), as bandas tocavam no espaço onde hoje se localiza o café e a galera curtia o som na subida do bosque. As festas no bosque do CFH foram proibidas em 1999.

Em 1999 participei de outro projeto na UFSC, o “Quintal das Artes”. A coordenação era do Marco Valente (Departamento Artístico Cultural  – UFSC). A cada 15 dias o projeto acontecia num centro diferente, tinha de tudo: teatro, dança, poesia, fotografia e música, muita música. Uma ótima iniciativa que acabou em 2000 por falta de financiamento.

Em 2001 participei do projeto “Caldo Cultural”. Acontecia todas as segundas, na lagoa da conceição (Bar Drakkar). O projeto era coordenado por Cesinha Espíndola. Música autoral de primeira qualidade. No projeto, eu declamava poesia acompanhado dos músicos Jaime Santos no violão e Tuti na flauta. A coisa funcianava assim: Toda segunda, um artista ou um grupo era responsável pelo palco e pelo cachê da noite, os outros artístas colaboravam com as canjas e a noite ficava completa. Havia uma rotatividade e algumas tentativas de reuniões antes das apresentações. Tenho a impressão que foi esse projeto que transformou-se depois em “Projeto Velhos Amigos”.

Também em 2001 eu vi nascer o movimento de batuqueiros de maracatu na Ilha. Eu acompanha os ensaios todos os domingos, aconteciam dentro da UFSC, bem em frente a concha acústica. Eu até tentei me aventurar por umas duas vezes, tentando tocar uma caixinha, mas o Galego, que na época coordenava os ensaios, me passou uns exercícios que eu achei muito repetitivos, não tive paciência para o ofício, abandonei esse desejo. Mesmo sem tocar acompanhei o grupo até o mesmo se dividir.

Assisti o nascimento de dois grupos: O arrasta Ilha e o Sirigoiá. Como na época eu era diretor do DCE da UFSC e trabalhava na Favela Chico Mendes, passei a intervir na criação da possibilidade de os amigos do Maracatu se apresentarem nas comunidades de Florianópolis. Desta forma chegamos à favela Chico Mendes e subimos o morro da Serrinha. Em 2005 eu fui trabalhar como professor da escola Indígena do Morro dos Cavalos e lá se foi o Maracatu fazer uma apresentação dentro da aldeia. Tudo quanto era encontro que eu ajudava a organizar eu buscava possibilitar uma apresentação do Maracatu, até no encontro das Crianças do MST eles tocaram. Mesmo não sendo músico, sempre tive um apreço muito grande por essa manifestação. Eu via e vejo no Maracatu algo legítimo de nossa cultura, por isso fazia o possível para possibilitar que várias pessoas tivessem acesso ao soar dos trovões.

Ainda em 2001, ainda no DCE da UFSC, ajudei a organizar o UFSCTOCK, um festival de Rock que aconteceu no hall do atual Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. O coordenador Geral do Festival era o José Guerreiro (na época estudante de Psicologia). 24 horas de som, iniciou às 18 horas de um dia e foi até às 18 horas do outro dia, sem parar, uma banda atrás da outra. e olha que a gente não tinha nem ouvido falar em virada cultural. Lembro que quem colocou o som foi o Gringo. Certa vez ele me disse que até hoje guarda todas as gravações das apresentações.

De 2001 à 2005 continuei participando de organizações de eventos por toda a ilha.

Em 2006 fui para o palco. Eu, Raphael Galcer no violão, Bernardo Sens na flauta e Gean Tommasi no Sax apresentamos o show: “sobre a arte de amar”. Aqui inicia minha revoada de apresentações sistemáticas de música e poesia.

No segundo semestre de 2006 veio outro show de música e poesia: “ESPELHADOS” – A VIDA REFLETIDA EM POESIA. Juntamente com os parceiros Raphael Galcer (no Violão) e Ryana Gabech (declamando seus poemas).

Em 2007 entra em cena o Margem Esquerda – Música e Poesia Brasileira: Eu na poesia, Luciana Alves (cantando) Laila Loddi e Osvaldo Pomar na percussão, Paola Gibram no acordeon e Raphael Galcer no violão. Pouco depois de o grupo formado ganhamos reforço e a formação passou a ter Marina Beraldo Bastos (flauta), Maria Beraldo Bastos (clarineta) e Eduardo Vidili na percussão. Mas essa história você já conhece.

Em 2009 participo de mais dois projetos que envolvem música e poesia:
“o Acordeon da palavra” – eu na poesia e João Tragtenberg no acordeon e “Rio da Impermanência” – eu na poesia e dois violonistas canhotos (Raphael Galcer e Rafael Buti)

Além destes projetos participei de outras apresentações envolvendo música e poesia:
1)samba e poesia – com o grupo bom partido; 2) rock e poesia com “Lamaçau; choro e poesia com “grupo Ginga do Mané”. Fico por aqui, se eu lembrar de outras e outros eu te informo. Um abraço do Cesinha.”

 

Take 5

Música, música.

Um tema entre tantos possíveis. Ilha, ilha. Um lugar insular entre incontáveis.

Florianópolis não tem um porto, o que pode explicar metaforicamente a dificuldade de exportação da música feita nestas latitudes. Ou mesmo as dificuldades de trânsito artístico e intercâmbio com outras cidades. Aparece um depoimento interessante no documentário Maciço, longa-metragem lançado em 2009 e dirigido pelo cineasta Pedro MC, que trata das populações que vivem nos morros da região central da cidade. A fala é de um jovem chamado EdSoul, que conta como no início do século XX alguns sambistas residentes no Maciço do Morro da Cruz embarcavam, gaiatos, nos porões dos navios rumo ao Rio de Janeiro. Passavam um tempo lá e na volta traziam sambas novos e malemolências. Eis aí uma ponte que não pode ser desconsiderada. Essa matriz carioca, ou pelo menos esse diálogo com o Rio, possivelmente originam o formato do carnaval de avenida, com escolas de samba, visto na Ilha de Santa Catarina. A passarela se chama Nego Quirido, e abriga todos os anos na folia de momo cerca de quatro ou cinco escolas do grupo principal, a saber: Embaixada Copa Lord, Unidos da Coloninha, Protegidos da Princesa e, mais recentemente, a já mencionada União da Ilha da Magia. Poderia dizer-se que o carnaval ilhéu é um bonsai do carvaval carioca.

É curioso o fato de que quase um século depois esteja acontecendo um diálogo cultural Floripa-Rio semelhante ao que acontecia em outro contexto histórico. Juntaram-se a grupos de samba tradicionais em atividade na ilha há algumas décadas, como o Bom Partido, alguns grupos como o Projeto Nosso Samba, de músicos jovens radicados na ilha que, acompanhados pelos cariocas Alvaro Guimarães e Cristovam Muniz, desenvolvem trabalho autoral com temática relacionada à cidade, além de releituras de sambas consagrados. Uma figura fácil nas rodas e noites de samba na região da Lagoa da Conceição é Dom Camilo, carioca, sambista boêmio, sempre com o pandeiro a tiracolo. Conta já ter tocado com Nelson Sargento, entre outros bambas.

Por aqui não temos Arcos da Lapa. Quando se fala em lugares de samba na capital catarinense, é indispensável lembrar o vão central do Mercado Público, o Bar do Tião, a Ponta do Sambaqui, a Prainha da Barra da Lagoa e o Varandas, na Avenida das Rendeiras, entre vários outros.

O samba na ilha, acreditam muitos, ressurge, surge renovado, emerge, ruge neste século XXI. Segue relato de Alvaro Guimarães sobre a aparição do Projeto Nosso Samba:

“Pois é, numa sexta feira de março de 2009, fui curtir um samba numa casa noturna que havia na Av. das Rendeiras (Jinga Bar). Lá encontrei uma amiga (Ida), que comemorava seu aniversário. Ao final da noite e como ela soubesse que eu também era músico e já havia integrado um grupo de samba no Rio de Janeiro, me convidou para dar uma “canja” numa roda que estava acontecendo às quintas, na Lagoa da Conceição e que se chamava “Samba de Quinta”. Adorei a idéia, pois estava com saudades de cantar e tocar pandeiro. Ela me informou o local e o horário.

Passei a semana aguardando a chegada da quinta e lá fui eu, pandeiro em punho, louco de vontade de ouvir e participar da tal “roda”. Quando cheguei, aproximadamente uma hora após o horário marcado, não vi nenhuma roda de samba no local, porém lá estava a Ida, sentada numa mesa do bar com alguns amigos. Perguntei a ela se havia chegado muito cedo? Ela respondeu que não, perguntei então; e os músicos, cadê? Ela então me respondeu com a maior cara de pau, É você… Como assim??? Eu só toco percussão e me parece impossível realizar uma roda de samba sem nenhum instrumento harmônico. Ela disse: Relaxa, toma esta pinga mineira e vamos cantar um pouco, eu também tenho este chocalho (ovinho). Fazer o quê? Tomei a pinga e algumas cervejas, tirei o pandeiro da capa e comecei a cantar e tocar, todos cantaram juntos e comecei a achar gostosa aquela bagunça. Adorei conhecer aquelas pessoas, sua contagiante alegria e marquei de voltar na próxima semana. Voltei e o número de pessoas foi maior e o encontro mais animado. A cada semana que passava, crescia o número de participantes e ficava mais necessária a presença de algum instrumento harmônico. Um dia consegui levar lá um amigo meu, Álvaro Fausane, que levou um cavaquinho. O grupo ficou tão empolgado e cresceu tanto que fomos expulsos do bar. (O Empório Mineiro é um café que se propõe sóbrio, na porta de um shopping e não cabia tanta confusão). Eu já estava tão envolvido com o encontro que consegui achar um novo lugar para fazermos o tal “Samba de Quinta” o bar Varandas.

Além de músico, também sou compositor, bem como o Álvaro Fausane e começamos a tocar nossas composições. Ele havia voltado de São Paulo e trouxe de lá a idéia de fazermos uma roda de compositores. Convidou vários músicos e compositores, numa quinta feira, e fizemos a primeira roda de samba com todos os intrumentos de direito (violão cavaquinho, surdo pandeiro, etc…). Resolvemos mudar o dia da semana para terça, pois às quintas vários músicos tinham compromissos de trabalho e combinamos terça feira. Como não fosse mais às quintas e nossa proposta era de apresentar composições próprias, resolvemos mudar o nome do encontro e terminou ficando “Projeto Nosso Samba”.

Resumindo, uma canja despretensiosa terminou virando uma roda de compositores, que por sua vez, transformou-se numa balada e num grupo que hoje é profissional, compõe o cenário do samba de Florianópolis e já está concluindo seu primeiro CD.

Hoje, através das parcerias que fizemos, temos composições que já preenchem mais uns três CDs. Meu nome também é Álvaro, como há dois Álvaros e sou do Rio de Janeiro, virei Alvinho Carioca. Assim nasceu o Projeto Nosso Samba.”

Outra pessoa que pode falar do samba na Ilha de Santa Catarina com alguma propriedade é o chorão e sambista Raphael Galcer. Que integra, entre outros, o grupo de choro Ginga do Mané, que lançou CD em 2011, além de ter um trabalho em conjunto com a Velha Guarda da Copa Lord, vinculada à escola de samba nascida no Maciço. Integrou o lendário grupo Margem Esquerda, que ostentava uma base musical muito rica mesclada à poesia e atravessou o Atlântico, fazendo uma turnê por universidades da Espanha em 2008. Tive o prazer de traduzir para o português os convites provenientes das instituições de ensino, em espanhol, que foram apresentados ao MinC a fim de obter apoio para custeio das passagens. Oito integrantes demandam uma logística e tanto. Formavam o grupo, além de Raphael Galcer, as irmãs Maria Beraldo Bastos e Marina Beraldo Bastos, Paola Gibram, Luciana Lira Alves, Osvaldo Pomar, Eduardo Vidili e o poeta César Félix, comandante e comandado das palavras. Vamos às aspas:

 

 

 

 

 

 

 

 

Ilha da Música Ilhada (continua…)

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Introdução (im)provisória + Take 2

 

Ilha da Música Ilhada

 

Introdução rodopiante (tempestade anterior à calmaria)

Ouvidos todos temos. Todos temos ouvidos. Tememos nossos ouvidos. Trememos. Tremulam as membranas. Quando deixamos de ter medo, tímpanos timoneiam a dança sináptica.

A jangada de pedra* que é esta Ilha de Santa Catarina oscila há duas décadas no meu peito, que está conectado aos meus ouvidos e demais sentidos. Esta é uma escritura em primeira pessoa. Jornalismo cidadão. Experiência vivida.

Ouvidos todos temos. Somos todos ouvidos. E com os que tenho, aproveito desde que descubro boa parte da música autoral feita na também chamada Ilha da Magia, em alusão ao folclore povoado de narrativas bruxólicas, talvez ainda pouco destrinchadas com abordagem semiótica, portanto vistas aquém do potencial transformador que teriam. As sacações geniais do Franklin Cascaes. Fiz uma frase longa. Caso queira ser inteligível, eu sei, digo a quem me lê agora, tenho que me acalmar.

Vim parar (e me mover) na ilha

Chegada: 27 de dezembro de 1992. Estamos em 2012. Duas décadas. De cada, experiências diferentes. Beiro os 30 anos de idade, então tenho dois terços de vida ilhada. E com escuta. Mas na adolescência as descobertas ainda eram com a chamada música morta, mais que tudo registrada em fitas K-7 (cassete, para os afrancesados) ou ouvida nas rádios popcorns acessíveis. Dava nush córnu.

Lembro até hoje da descoberta da música instrumental feita ao vivo, que por ser de improvisação bem além do quatro por quatro, tinha tom autoral na releitura: Café dos Araçás, 2000 ou 2001 era o ano, noite, e naquela casinha açoriana Cássio Moura, Toucinho Batera, Arnou de Melo e Leco, quarteto guitarra-bateria-baixo-piano, mostrando o que até então eu só conhecia em CD, sem referência imagética. Me encantou ver a dinâmica da interação pelo olhar, dos convites, dos solos, dos diálogos, das voltas aos temas naquela pegada do jazz moderno, coisa fina, alguma bossa renovadora.

Isso na mesma época em que eu descobria os discos de vinil do Hermeto Pascoal. Nos Araçás. Extinto. Que viria a ser muitos donos e anos depois, em rotações da vitrola vital, sede da ZeroTrack e concomitantemente do Centro de Inovação Social. Deve haver quem nem tenha sabido da existência dessas variantes no tempo para o mesmo espaço, ainda assim o fato é que fez barulho.

Extintores de incêndio.

Agora funciona na casa uma vidraçaria comum do filho da dona, perdeu a graça, o olhar vidrado, o ouvido anestesiado pela serra elétrica. Talvez a senhora sem timo (poderia dizer tino, poderia dizer senso) social e artístico seja boa metáfora para o jogo de cena que, dado nada aleatório, é deletério à música autoral e à economia criativa na cidade pelo trato que recebe do poder estatal e de parte da elite econômica, em que os filhos da repetição cover sempre à boa casa tornam, talvez tecendo rendas montados num boi-de-mamão fake que viaja na maionese pop, enquanto gira na pindaíba etérea e instável a roda dos enjeitados sublimes, que pisam em ovos e preparam a omelete nutrição colorida, chocados com o eco no vazio pardo.

Invisibilidade relativa, disso se trata. Acontece criação autêntica, vista em nichos, em ninhos, em berços esplêndidos, trincheiras pacifistas pela via da arte. Mas a mídia de massa, ignorante das questões cardíacas, tem pouca coragem e falseia a realidade, exibindo jineteadas em CTGs e campeonatos de motocross  em detrimento, por exemplo, de uma oficina franca com Naná Vasconcelos em 2009, no Floripa Instrumental. Fui testemunha ocular, espantada, do fato.

Sem pessimismo gratuito nem crítica negativa depressora, é necessário organizar o discurso ou o fracasso deste colapso verborrágico será impávido colosso. Mas não largo o osso. Tusso e sigo.

A verdade é que tudo é mais complexo do que gostaríamos. E que podemos falar de coisas muito boas feitas nesta paisagem musical insular que é fecunda, florida, promete.

Música ilhada

A música que se faz na Ilha de Santa Catarina ou está relacionada com ela já rodou o Brasil e o mundo. É uma provocação o título deste amontoado de palavras gráficas áfonas que tratam do intangível que é o campo do som. Já se transitaram as pontes, de cimento e aéreas. As infovias também ajudam na circulação. Os festivais independentes, a web 2.0, as licenças flexíveis, a generosidade intelectual e os modelos de negócios abertos, tudo colabora para a quebra do ovo fértil que dá nascimento a uma ave de vôo amplo (já escrevi isso por aí). O que liberta é o gosto, o gesto genuíno, o resto é resto.

Há catarinenses que foram catar a brecha da matrix bem longe. Um caso é Wado, compositor alagoado (partiu para Alagoas) e algodoado (de algodão). Emigrou da ilha aos 8 anos de idade, a tiracolo da família provavelmente, e encontrou em Maceió terreno mais macio, por incrível que pareça e contradizendo os estereótipos nacionais de sul maravilha e nordeste atrasado.

Wado de alguma forma, voluntariamente ou não, renunciou à ponte Hercílio Luz, que queria apenas para pedestres. Fico imaginando se teria trilhado caminho semelhante (6 álbuns nos 10 anos transcorridos entre 2001 e 2011) se tivesse permanecido na ilha pelos acasos da vida.  Esparge a arte dele de graça na rede, que balança e faz cair uma chuva boa prazenteira, finalmente, exemplo para a abertura que pode ainda emergir nos corações ilhados, alguns já sensíveis, outros em processo de degelo, todos talvez rumando à dispersão ampla da arte, em que a rega é tão prolífica a ponto de favorecer os brotos que viram comida para as almas sem regra.

A música é, das artes, a que mais apta está a servir como ambiência para situações marcantes da vida. Pode ser fruída, fluidamente, de olhos fechados. Provoca dança interna, no nível atômico, bioenergético. Isso, é claro, se viva.

Alitero para evitar a prolixidade, sem êxito.

Escrever sobre música é tarefa inglória, posto que ninguém aposta um tostão furado no texto como via de acesso à música. A canção é o aval máximo que a palavra tem para fundir-se a ela. Textos que falam sobre música podem ser enfadonhos, por um caráter laudatório, ou por falta de capacidade metafórica para significar algo próximo do acontecido in loco. É louco.

Numa praça, a Bento Silvério, na Lagoa, que é da Conceição, músicos jovens conceberam uma roda de choro aberta para acabar com a tristeza das quartas-feiras, todas de cinza. Isso em 2007, 2008. Por incrível que pareça – e seja -, a polícia interrompeu a iniciativa multicrômica poucos meses depois, quando o movimento musical começava a ganhar corpo. Um poeta já evadido da ilha e que também marcou presença na cultura contemporânea da porção insular da cidade de Florianópolis, a tão difundida Floripa, bem longe dos estereótipos glúteo-praiano-baladeiros, acreano, César Félix, potente na crítica irônica me disse: “A polícia impediu as rodas de continuarem porque o Choro é uma coisa muito violenta”. Eis os comentários dele após a leitura deste trecho:

“Somente para agregar: acompanhei de perto o início das rodas de choro na pracinha da lagoa. Até porque parte dos chorões dividiam parede comigo. Lembro que a coisa foi parar lá pela pracinha porque nenhum comerciante queria os músicos tocando no seu recinto, diziam que a música iria “atrapalhar” o movimento. Os meninos e as meninas saíram do centrinho da lagoa, mais especificamente da “faixa de gaza” e só foram aceitos no lanche do Renato. Revoltados, os músicos tomaram uma decisão: vamos tocar no Renato todas as semanas, de graça, sem cachê, e assim fizeram: toda segunda feira.

Aconteceu que a música era boa e os músicos bem articulados, daquela roda de choro nasceu o “Margem Esquerda”. Início de 2007. A roda servia como diversão, mas também como prática e exercício de choro, local de aprimorar e praticar os conhecimentos musicais, uma troca semanal de informação. Muita gente perdeu o medo de tocar ali naquela roda de choro. Até que a inveja baixou forte, os mesmos comerciantes que não deixavam tocar denunciaram para a polícia. A roda foi impedida, acusada de ser violenta, coisas da ilha.”

De fato no município, a tolerância zero importada e a lei do silêncio são camuflagens da ausência de vontade estatal quanto à tão falada democratização do acesso à cultura. Talvez falte capacidade analógica para perceber que é como com os catadores de latinhas: se organizam pela necessidade, recolhem o que seria lixo e colocam o Brasil na posição de maior reciclador mundial de alumínio. Isso por geração espontânea, sem um plano de governo rígido com finalidades específicas. Se com as culturas autônomas da sociedade civil se fizer o mesmo, a reciclagem da própria sociedade se dará de uma maneira mais bonita. O controle repressivo inibe a capacidade de afeto, que é base imprescindível para um ambiente humano seguro de verdade.

Tratar irrupções criativas na cidade como desvios que devem ser corrigidos parece caminho pouco sábio. Um grupo de tango argentino contemporâneo chamado El Método aportou na ilha em 2011 e sofreu chateações, mesmo enchendo o largo da catedral de uma sacralidade como há tempo não se via. Um trio de chorões uruguaios também sofreu incômodos desnecessários. Um luthier chileno teve as flautas confiscadas arbitrariamente. Tudo isso na rua. Tudo isso na lua em que vivem os déspotas esclarecidos. Que não se informaram sobre a Semana de Arte Moderna de 1922 e jamais se colocaram a questão da antropofagia, muito menos tomaram consciência da fase mais que nunca patchwork do mundo, em que as sínteses são obtidas com base na diversidade.

Um pé na Áustria, outro na Ilha de Santa Catarina. Essa é a realidade vivida há décadas pelo gaúcho de nascença Alegre Corrêa, que tem estúdio no Rio Vermelho e sexteto de música instrumental aclamado e lotador de teatros em Viena e adjacências européias. Epopéias aventurosas de indivíduos temerários. Alegre ganhou o mundo, mas há quem fique na tristeza, a ver mar revolto sem navios que carreguem.

Os argentinos que chegavam aos borbotões, feito revoadas de borboletas, nas décadas de 1980 e 1990, com os penteados diferentes e o portunhol selvagem, não foram os únicos. Ficaram por aqui alguns que tocam bateria em orquestra sinfônica e ao mesmo tempo em grupo de música instrumental brasileira, outros que vão do saxofone à Antropologia com a mesma ginga.

Evoco aqui Aníbal Ernesto Quiroga e Eduardo Ferraro, ambos integrantes do grupo Arreio Sem Freio, com gestação na ilha. O nome é bem adequado: fazem música estruturada, com bons “arreios”, mas cavalgam o som sem recorrer à tortura bucal do eqüino imaginário, no limite da linha entre a liberdade e a disciplina. As composições têm cores pascoalinas (de Hermeto) e também pigmentos de toda a América Latina. Uma das características ímpares do grupo é o uso da baterimba, instrumento percussivo derivado da junção da bateria com a marimba.

Alguém aí já ouviu falar? Ouviu tocar? Arreio Sem Freio! Lançou CD em 2009, que merece ultrapassar mais fronteiras.

 

Harmonia sem Cronologia*

*Título de música de Hermeto Pascoal

A Ilha de Santa Catarina, além do nome beato, tem também muitos terreiros afros. Samba, Choro, Música Instrumental Brasileira, Jongo resgatado por Luís Canoa, o som do Orocongo do Seu Gentil, Maracatu, Forró, for all.

Existe aqui uma única faculdade de Música, com opções de bacharelado e licenciatura, cuja ênfase é na vertente erudita. Há movimento pela criação de um Bacharelado em Música Popular na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), que abriga as graduações existentes. Atitudes corajosas de alguns professores hereges possibilitam a interlocução com a chamada Música Universal, de linhagem Hermética, espalhada pelo contrabaixista Itiberê Zwarg, cujas vindas acontecem em ciclos que se repetem há mais de dez anos. Vieram, voltaram e voltarão. Ele e a trupe. Antes Itiberê Orquestra Família, agora Itiberê Zwarg e Grupo. O próprio Hermeto também já esteve na cidade várias vezes. Na década de 1990, fazendo show no CIC (Centro Integrado de Cultura), sobre o qual ouvi a história de que formou um séquito que em procissão acústica desbordou o centro e integrou a cultura à periferia do teatro, em plena rótula, no meio do trânsito. Em 2008, ao ar livre na mesma Praça Bento Silvério, na Lagoa, que abrigou a roda de choro e é lugar de ensaios ao longo do ano do antigo bloco e atual escola bicampeã União da Ilha da Magia. Que mobiliza os integrantes da bateria em ensaios cuja periodicidade semanal cresce até a diária, proporcionalmente à aproximação do carnaval.

Take 2

Que agora, neste fevereiro de 2012, já ficou para trás e começa a se distanciar enquanto o ano flui rumo à nova virada e mais uma nau da carne. Todas convenções gregorianas, convenções profanas. Um conceito que li citado pelo Zé Miguel Wisnik é o de “iluminação profana”, cabível a várias situações de epifania terrena, que vem a ser o que acontece ao ouvir música. Ascensões celestiais também, além das escavações profundas.

Estávamos no carnaval, que passou. É em março que o ano realmente começa na cidade. Acontecem manifestações musicais variadíssimas, consistentes, flexíveis ao mesmo tempo, orgânicas, polissêmicas, alentadoras e mutantes.

Existe por aqui um paradoxo: as coisas acontecem muito rápido porque as coisas acontecem muito lentamente. Explico: a duração no tempo é curta, o fenômeno acontece rápido, os recursos monetários afluem devagar como remuneração pela arte. Costumamos ter uma visão romântica do artista, ainda assim muitos nessa condição pagam aluguel, andam de ônibus, táxi ou enchem o tanque, comem e vivem processos fisiológicos existenciais idênticos ou muito semelhantes a qualquer pessoa, do bocejo ao pum. E, como dizia vovozinha, “Neste mundo capitalista, tem que ganhar dinheiro e se sustentar”. Enquanto a arte não remunera o justo, muitos artistas emigram em busca de melhores acolchoados materiais ou transitam a atividades mais sóbrias que pagam o mínimo necessário para a subsistência.

Arte é lapidação, tempo, convivência quando se trata de música feita em grupo. Quando vemos um artista no palco, poderíamos lembrar que aquelas horas de espetáculo são só a ponta do iceberg, tendo como base submersa dias e dias de ensaios ou experimentação coletiva, bíceps fortalecidos pelo transporte de caixas, instrumentos, mesas e periferias, horas e horas dedicadas também ao comum trabalho de autoprodução, divulgação na internet, busca de apoios e tudo o mais. Almas em chamas que não queimam, derretem, sempre. Isso enquanto o anzol da penúria não lança rasga essa harmonia universal que acontece sempre que alguém consegue fazer o que gosta da vida. Fora da água qualquer peixe ofega.

Ao falar disso me vêm vários nomes, acasos, há casos que não são isolados, uns nadando outros alados, ao lado, à margem da régua de Chronos: Toucinho Batera, Quarteto Rio Vermelho, Trio Ponteio, Bando Muiraquitã (era um autodeclarado bando, não uma banda), Cangaia, Felixfônica, Margem Esquerda, Dr. Cipó, Trio Butiá, Cravo-da-Terra, A Corda em Si, Somato, Sonora Parceria, Tatiana Cobbet e Marcoliva, Karibu Trio, François Muleka, Gustavo Messina, Sito Lozzi, Mari Leonel, Alegre Corrêa (um pé na Áustria), Bebê Kramer (um pé no Rio). Tudo gente “de fora” e muito de dentro ao mesmo tempo. As pessoas são do lugar em que querem ser/estar e fazer a vida.

Outro dia

Este texto segue, e hoje é outro dia.

Sempre é dia da alteridade, do outro. E os comentários na seção CO[R]RELATOS já me deixam propenso à autocrítica quanto ao que escrevi antes. Talvez tenha dito coisas descabidas na Introdução (Im)provisória. Sempre é bom contar com o que os outros contam.

O Jean Mafra, cantor e compositor da cena independente da cidade envolvido com as articulações político-poéticas, fez comentário no Take 1 desta introdução e afirmou que o cover tem um papel importante no sustento da economia da música.

Respeito as minúsculas dele, porque é assim que prefere. Ele disse:

“então, demorei para me manifestar por alguns motivos:

a) o texto é longo e merece certa calma e reflexão (sua poeticidade/prolixidade dispersa), daí melhor é deixar a pressa para depois.
b) de certo modo, felipe, sua fala não deixa muito espaço para um interlocutor. ela afirma aqui, pergunta acolá, mas, de modo geral ilumina pontos com uma precisão que se bastam. note, isso é, antes, um elogio – que fique claro.

de todo modo e todavia e porém, deixo aqui meu relato pessoal.

sou alguém que (com outros, claro), já há alguns anos vem articulando politicamente com a categoria, músicos/produtores/adjacências, e com o poder público e, conforme venho caminhando, cada vez mais me sinto cansado disso tudo… sei lá… atualmente penso, fiz e faço e farei o possível, no mais, quero mais é construir as minhas pontes, meu espaço. sim: “meu”. mas de quem mais quiser vir comigo. do modo que der. mas com alguma solidão e nenhum egoísmo. se não estou sendo claro, tomemos uma cerveja. ela antes, e depois, do almoço é muito bom para ficar pensando melhor…

agora, de todo modo, como teu olhar se lança sobre um cenário musical que, embora eu conheça e admire, não é aquele com o qual tenha intimidade, não sinto que tenho muito o que acrescentar… ainda assim, faço um reparo: esse “universo cover”, tão poderoso por aqui, embora não me seja caro, é importantíssimo para economia da música feita nesta terra. no mais, não vejo tanta diferença entre esse (mundo) e um outro, o dos sambas e choros e suas “raízes”. para mim (salvo as exeções) é tudo celebração ad infinitum d’um passado idealizado.

por mim, aquele abraço e a torcida pelo desdobramento da conversa.

p.s. com eduardo ferraro, césar félix e guilherme ledoux, não tem como este espaço não parecer atraente.”

Concordo, é uma cobertura. Mas diferencio a execução que trata de se assemelhar ao máximo à versão mais batida, mantendo o conforto do conhecido, daquela que propicia o prazer da descoberta justamente pelo deslocamento a um ponto que torna o fazer sonoro mais composição flexível sobre uma referência do que repetição maquínica num molde rígido.

A grande questão é, talvez, o resgate de alguma transcendência. Às vezes esquecemos que a música é alquimia que depende da atenção enternecida do público.

Os comentários do Guilherme Gouvêa, violonista, cantor e compositor da banda Felixfônica, feitos na rede social mais popular atualmente, também me fizeram pensar.

“Pena que na época do Cangaia não tinha isso. Era VHS e todas as que compramos mofaram, nem pra mãe mostrar pras tias que moram longe e perguntam daquele filho cabeludo e maconheiro que tocava rock universitário. Acho que ela dizia que era rock porque forró pega meio mal até hoje. Mas voltando à cena, ela está em construção, tem gente legal fazendo merda, gente especial com camisa de força, eventos pipocando, feijoada do cacau bombando, economia local crescendo, pavimentações. Acho que em 20, 30 anos nós cairemos na real de que aquela releitura de Garota de Ipanema deveria ser em mi bemol.”

“O pior de ir num lugar com compositores é ver três ou quatro da platéia cantando e o resto falando alto porque o som atrapalha. Acho que esses lugares devem ser frequentados por mães, namoradas e os melhores amigos.”

Embora a poética visceral do discurso dele me impeça a segurança de ter entendido bem o que disse, acho que lamentou a barulheira que se instala em muitos ambientes que têm música ao vivo. Compartilho do desconforto. As experiências mais sublimes de audição musical me aconteceram em teatros ou lugares em que o espetáculo tinha o foco central, sem o som de liquidificadores e bandejas se intrometendo ou falatórios eufóricos sobre temas alhures na mesa ao lado.

A entrada em algum estado de transe costuma acontecer mais facilmente se o contexto colabora. Me veio à mente agora o caso do violinista Joshua Bell, que foi posto a tocar numa estação de metrô de Washington, nos EUA. A situação mostra bem o quanto é importante o reconhecimento. O músico é amplamente louvado pela crítica e pelo público, e ganha algo próximo das dezenas de milhares de dólares por mês. No metrô, anônimo e com a atenção temporária apenas de algumas crianças que retinham as mães para ouvir o som, o violinista declarou mais tarde que sentia alegria quando as pessoas deixavam uma nota de um dólar em lugar de simples moedinhas.

O Teatro SESC Prainha, com apenas cem lugares, foi o palco no qual vi mais música autoral na cidade. É de se pensar porque a proporção de espaço no SESC Prainha dedicado ao esporte (ginásio) tem capacidade para várias centenas enquanto o que serve à arte (teatro) tem que se contentar com apenas uma. É louvável o que acontece naquele lugar e os circuitos musicais que o SESC fomenta em todo o estado de SC, alimentando os músicos com algum provento e arejando com oxigênio o fogo criativo que, com sustento, tem chamas mais flamejantes. A pergunta é apenas como, tendo público e boa programação, o anfiteatro fica limitado a um número tão pequeno de cadeiras, em uma cidade que conta com população flutuante entre meio milhão e duas ou três vezes essa cifra dependendo da época do ano.

Muitos artistas que insistem na busca de caminhos insulares, se tivessem sido descobertos e produzidos na Europa (talvez ainda mais antes da crise) estariam com os bolsos cheios ou pelo menos com vida digna. Por aqui ficam juntando migalhinhas. Isso acontece por diversos motivos e um deles, menos mal já em transformação, é a postura pouco ética de muitos donos de bares e casas que oferecem música ao vivo. Entre outros problemas, são comuns a ausência ou precariedade de equipamentos de sonorização, o não pagamento de cachê fixo e a aferição unilateral (pelo contratante) do dinheiro arrecadado com couvert artístico, que deveria ser repassado integralmente, como diz a lei. É usual a reclamação dos músicos quanto à diferença entre o que imaginaram ter sido arrecadado certa noite, pela quantidade de público presente, e o que receberam ao fim do show, aquém.

Aí vale perguntar: de quem é a responsabilidade? Poderíamos arriscar como resposta que é compartilhada. A conivência dos artistas, seja por necessidade, seja por falta de autoconfiança, é que mantém as condições injustas.

Existem outros artistas que conseguem ter uma produção (ou autoprodução) mais eficaz, delimitam bem os limites do respeito para não ficar à mercê de situações abusivas e conseguem, mal ou bem, sustentar-se com a música que fazem.

Também me ocorre traçar uma relação entre a má mobilidade urbana na cidade de Florianópolis e o número de consumidores de arte, que fica abaixo do potencial. Muitas das apresentações acontecem durante a noite, com início às 20h, 21h, 22h ou 23h. Costumam durar entre duas e quatro, até cinco horas dependendo do contexto.

As linhas regulares de ônibus deixam de circular por volta da meia noite ou pouco mais. Depois existem uma ou duas linhas ao longo da madrugada, mas com itinerários que não cobrem todos os bairros. Além do mais não existe – e estamos numa ilha – transporte coletivo marítimo. O táxi é caro e os que se arriscam em aventuras ciclísticas noturnas são raros. Muitas das pessoas que formariam o público mais assíduo da cena musical ilhôa não pertencem às classes sociais que têm acesso aos carros. Portanto é de se pensar essa relação.

 

Consciência da responsabilidade e crowdfunding

A responsabilidade, ao escrever sobre o que se faz de música autoral contemporaneamente na Ilha de Santa Catarina, é muita. É necessário ter capacidade de responder e, também, de formular algumas perguntas necessárias.

Podemos ir pela via da falta, de apontar as ausências ou carências, mas também é possível enveredar pela visão clara do que já acontece. E acontecem muitas coisas.

Algumas delas passam ao largo dos modelos tradicionais de viabilização econômica. O crowdfunding, ou financiamento coletivo/colaborativo, serve como trampolim para os grupos e artistas que mergulham numa trilha autoral em vez de apostar na repetição. Alguns projetos originados em Florianópolis já passaram pelo site Catarse. Um bem-sucedido foi de gravação do CD do Sonora Parceria – Música Súbita, formado pela dupla Tatiana Cobett e Marcoliva, que já tinham convivência estreita antes, com os jovens Rafael Meksenas, Larissa Galvão, Mateus Mira, Pedro Loch e Rafael Calegari.

O grupo Cravo-da-Terra fez uma tentativa de arrecadação, também via Catarse (a mais atuante plataforma de financiamento colaborativo de projetos criativos no Brasil), para gravação do CD Verde Longe. Eles obtiveram por volta de um terço do valor proposto. O mecanismo prevê que o proponente do projeto só recebe os recursos se a arrecadação equiparar ou ultrapassar o valor estipulado. Quando isso não acontece, os doadores recebem o valor de volta em forma de créditos, para apoiar outros projetos.

Neste momento, por exemplo, a conjunção de muitos aspectos novos da realidade cultural brasileira é benéfica para um músico que há anos labuta e busca espaço na ilha: François Muleka. Está em curso, neste mês de março de 2012 e ao longo do abril próximo também, a campanha de financiamento coletivo do 1º CD dele, “Feijão e Sonho”.

Por aqui, ele declarou:

“Entrando aqui, me deu vontade de relembrar o memorável bar Jogral na cabeceira da ponte Hercílio Luz. Sempre sons de qualidade, e figuras das mais interessantes da ilha. Tive o prazer de pegar os últimos anos do bar… hoje não sei por onde anda o França, mas o lugar era lindo e tinha aquela vista maravilhosa para a ponte e para o mar, além da sopa. É um lugar onde tenho presas boas memórias de minha chegada na ilha e dos inícios de trabalho com música por aqui junto com o João Amado.

“Acho que hoje virou uma rádio. Aquele lugar sempre rendeu boas histórias, e se eu peguei a finaleira do bar, tenho certeza que os amigos por aqui vão poder contar poucas e boas. começo com uma:

“Certa vez tocando com o Amado, chegou um pessoal pelas 3h30 da manhã (horário de pico do local huahauhau). Era um grupo de respeitáveis senhores e senhoras, em clima de “encontro da turma de jornalismo de 63″. Pediram que tocássemos Pais e Filhos. Eu, que sou super fã da Legião Urbana, toquei feliz da vida… foi lindo ver aquelas pessoas juntas abraçadas em clima de natal, de mãos dadas cantando “é preciso amaaaaaaaar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Se filmássemos com uma 7D, daria uma linda propaganda de natal. Logo em seguida, pediram que o Amado tocasse uma do Ney Matogrosso. Ele tocou Bandoleiro… pois me bastou piscar os olhos e lá ia uma baita briga entre eles… não acreditamos no que acontecia… “segue tocando, disse eu pro amado”… depois “eita, deu briga mesmo”.

“Pedimos pra parar e, claro ninguém deu ouvidos. Resumindo, o senhor que foi o primeiro a agredir, tinha um Audi preto estacionado na rua em frente. O senhor que foi agredido, foi até a rua, pegou uma chave de fenda e arranhou com vigor e tenacidade um Audi preto perto do bar. Minutos depois ele entra no bar e diz, “tá aí! agora destruí teu carro, bonitão!”.

“Daí empurra-empurra e tudo quase-de-novo. Logo em seguida chega a polícia e mais uma dezena de pessoas de pijama, moletom furado de dormir etc… um senhor de bermuda curta tipo seleção brasileira dos 70 com um sapato “moca-sim!” disse pro policial “é ele… eu tava fumando na janela do apartamento e vi este homem danificando meu carro”. Explicando: o carro do senhor-agressor estava estacionado mais à frente… então todos nos demos conta de que o carro danificado era de uma pessoa que não tinha nada a ver com a situação toda e estava fumando na sacada de seu ap enquanto um maluco arranhava seu carro. No dia foi uma sensação muito ruim de presenciar aquilo… mas depois ficou a parte da comicidade da situação. Alguém tem outra sobre o Jogral?”.

François integra, além de outros grupos, o Karibu Trio, que vem conquistando bastante platéia (acentuada e nem sempre sentada). Os produtores dele são Andrea Rosas e Luiz Henrique dos Santos, santistas radicados na ilha que encabeçaram a Porão de Pedra durante alguns anos e agora a metamorfoseiam em Parolema. Têm colaborado com o grupo de choro Ginga do Mané, com o próprio Muleka, além do baterista Toucinho e da poeta Ryana Gabech no espetáculo performático Zunido de Poema, que circulou o estado em 2011. Entre outras coisas, esse casal de produtores já articulou o espaço em pleno centro para o projeto Travessa do Samba, que foi interrompido por proibição governamental.  O público submetido ao poder. Luiz Henrique deixou um bom relato sobre o tema:

“Em setembro de 2011, eu, Luiz Henrique, Andrea Rosas, Grupo Projeto Nosso Samba representado pelo Alvinho Carioca, Bira Pernilongo, Velha Guarda da Protegidos da Princesa e Instituto Arco-Íris criamos o projeto Travessa do Samba. A idéia era divulgar os compositores de samba em Florianópolis e contribuir para a revitalização do centro histórico.”
“Todo sábado os integrantes da Velha Guarda da Protegidos junto com o grupo Projeto Nosso Samba se revezavam para apresentar sambas de compositores da região dentro do espaço cedido pelo Instituto Arco-Íris lá na travessa Ratclif no Centro.”

“Para quem não sabe, nessa mesma travessa fica o Bar do Noel, local tradicional de encontro de sambistas, que contrata, ou contratava, assiduamente grupos de samba para se apresentar enquanto servia uma deliciosa feijoada. Pela travessa Ratclif passavam os blocos de carnaval antigamente.”

“Ela fica bem perto do terminal de ônibus antigo e depois da criação do TICEN ficou deserto. O projeto era perfeito. Começava às 17 horas, bem depois da apresentação do grupo Bom Partido no Bar do Noel. Todo o pessoal do bar ia direto pra lá assistir o Projeto Nosso Samba junto com o Bira Pernilongo e a Velha Guarda da Protegidos cantar seus sambas. Até tocavam sambas famosos mas a maioria era composições do Tião, Alvinho, Bira, Velha Guarda, Julio Maestri além de cantar sambas-enredos de várias escolas daqui.”

“Estávamos submetendo o projeto às leis de incentivo a cultura e/ou financiamento coletivo a fim de angariar fundos para pagar os músicos, convidados, produção, limpeza e banheiro químico.”

“Mas um dia alguém reclamou do “barulho” e essa reclamação virou uma liminar endereçada aos proprietários de bares da rua e ao Instituto Arco-íris proibindo qualquer manifestação musical naquela rua…”

“Há alguns registros interessantes sobre a idéia.

http://travessadosamba.wordpress.com
https://www.facebook.com/travessadosamba

O projeto teve que de ser interrompido.”

Sabemos que nesta cidade acontecem festas de arromba em casas de bairros de classe média, média-alta ou alta, sem que se interrompam, fazendo tremer as paredes das casas vizinhas mesmo com a tal lei do silêncio, que proíbe ruídos acima de certo nível de decibéis a partir das 22h. Tudo, mais uma vez, depende do contexto. Uma roda de samba ou choro na praça ou na rua é proibida, uma festa particular com música eletrônica comercial das mais quadradas é permitida.

Um dos exemplos de situação em que a música acontece com qualidade, em espaço público e em parceria com a comunidade, é o Floripa Instrumental, evento que teve lugar pelo menos seis ou sete anos na ilha, com diferentes intervalos, As duas últimas edições, em 2009 e 2011, que presenciei, aconteceram na Freguesia do Ribeirão da Ilha, com um palco ao lado da igreja e do centro comunitário, no qual se serviam frutos do mar em diferentes versões, preparados pelos moradores do bairro. O outro palco ficava na beira da praia e os shows eram no fim da tarde, com o pôr-do-sol acontecendo. O nome do produtor desse evento é Floriano, muito bem falado no meio musical pela correção com que trata os artistas. Esse evento dá espaço expressivo aos talentos da música instrumental da ilha, do choro ao jazz, passando pela big Banda da Lapa do Ribeirão, que faz um trabalho muito relevante envolvendo os jovens daquela comunidade, com arranjos energéticos para músicas populares. A entrada é gratuita e no Floripa Instrumental já tive o prazer de ouvir e ver Naná Vasconcelos, Arismar do Espírito Santo, Toninho Horta, Gabriel Grossi, Trio Madeira Brasil, Nailor Proveta, Yamandú Costa, Alessandro Kramer e Toninho Ferragutti, entre muitos outros. O ambiente propicia diálogo musical intenso nas Jam Sessions que se estenderam do fim da noite até o meio da madrugada e foram capitaneadas pelo guitarrista Cássio Moura, generoso no rodízio. Que acontece e não necessariamente é de pizzas, assim como a sequência não se limita ao camarão.

 

 

 

Ilha da Música Ilhada (continua…)

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Introdução (im)provisória


Ilha da Música Ilhada

Introdução rodopiante (tempestade anterior à calmaria)

Ouvidos todos temos. Todos temos ouvidos. Tememos nossos ouvidos. Trememos. Tremulam as membranas. Quando deixamos de ter medo, tímpanos timoneiam a dança sináptica.

Continuar lendo

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